Arjuna diante de uma covardia moral?
Saudações caros leitores.
Depois de algumas batalhas psíquicas que travei, volto com essa articulação do Bhagavad Gita com a psicanálise. O destaque é para o guerreiro Arjuna forte e corajoso, porém vulnerável; nobre, mas confuso, contudo, no momento crítico da peleja, a coragem dele cede lugar a uma profunda angústia, a desolação de ver a destruição da família.
No coração do vasto épico Mahabharata, quando os exércitos Kurukshetra se encontram e o estrondo das conchas de guerra anuncia o apocalipse de uma era, o Bhagavad Gita emerge como uma canção divina, um respiro de luz no meio da escuridão iminente. Não é apenas o relato de uma batalha física, mas o diálogo profundo entre a alma humana, representada pelo guerreiro Arjuna, e a consciência suprema, manifestada na forma de Krishna, seu cocheiro.
Essa obra é uma marco na minha vida por ser meu primeiro contato com yoga que ocorreu em minha adolescência. Espero que você desfrute dessa leitura.
No silêncio tenso que antecede o estrondo da guerra, no limiar de Kurukshetra, Arjuna, o arqueiro de braço firme, vê o mundo girar e seu coração falhar. Não é o medo do inimigo que lhe gela a espinha, mas o reconhecimento do rosto do outro — mestres, primos, parentes — transformados em espelhos de sua própria destruição. A hesitação profunda, o Vishad Yoga ou o "Yoga do Desalento", irrompe como uma crise psíquica avassaladora, uma paralisia da ação frente ao imperativo da desintegração familiar e ética.
Visto pela lente da psicanálise, o guerreiro mergulha em uma angústia de castração simbólica, onde o desejo de vitória (ego) se choca brutalmente com o Superego, que clama pelos laços de sangue e pela tradição, gerando um conflito intrapessoal de aproximação-evitação, uma batalha onde as defesas do ego ruem.
O arco Gandiva, símbolo de sua potência, desliza de mãos trêmulas, não por fraqueza física, mas por uma paralisia moral, um "não querer saber" daquele crime necessário. Arjuna, neste momento de desamparo, experimenta um esvaziamento do sentido da vida, onde o objeto amado e o objeto odiado se confundem no campo de batalha, espelhando a angústia de separação e a culpa arcaica. A hesitação não é covardia, mas o momento em que a paixão (o impulso de agir) encontra o desespero (a consciência da perda), forçando o ego a enfrentar suas próprias sombras, moha (ilusão) de que o eu é o único agente e que a morte de parentes é o fim absoluto.
Krishna, servindo como o analista — o condutor da quadriga da alma — ou a consciência superior, não remove a batalha, mas articula a necessidade da ação sem a possessividade. Ele convoca Arjuna a olhar para além do véu da identidade transitória, desafiando-o a reconhecer o Atman imortal, curando a cisão entre o desejo pessoal e o Dharma (dever cósmico)
A profunda hesitação de Arjuna no limiar da batalha de Kurukshetra, em que o valoroso guerreiro lança mão de uma melancolia paralisante diante da necessidade de verter o sangue de seus próprios parentes, ecoa com notável precisão o conceito lacaniano de "covardia moral". Esta, longe de denotar um temor físico ordinário, constitui, na perspectiva da psicanálise lacaniana, o trágico momento em que o sujeito, assombrado pela angústia, abdica de seu desejo e se esquiva da responsabilidade inalienável de seu próprio ato.
Arjuna, ao travestir sua paralisia existencial em uma falsa superioridade ética ou compaixão — preferindo a inação à responsabilização pelos desdobramentos de seu dharma (dever) —, ilustra o neurótico que busca refúgio em posições supostamente "seguras" para evitar o confronto com o vazio de sua existência e com a implacável necessidade do desejo. Assim, o desespero de Arjuna não é apenas tristeza, mas a configuração de uma fraqueza ética diante do real, uma relutância em "não ceder de seu desejo" — máxima lacaniana que incita o sujeito a assumir o custo de seu ser, mesmo quando o desejo demanda a destruição das próprias estruturas familiares e sociais que lhe conferiam sentido. Ele ensaia, portanto, a fuga para uma "vida normal" ou uma moralidade consensual, recusando-se a assumir a contingência de sua própria posição no campo de batalha, que é a posição do sujeito dividido, aquele que deve lutar contra seus fantasmas internos ao mesmo tempo que contra seus inimigos externos, ciente de que o verdadeiro campo de batalha é o de sua própria subjetividade.
No teatro da alma, Arjuna paralisado no campo de Kurukshetra é o sujeito moderno frente ao abismo de seu próprio desejo, onde o dharma — seu dever singular — se confunde com o horror do confronto. O desejo ali não se apresenta como vontade consciente, mas como uma angústia lancinante, uma paralisia do gozo que o prende a um lugar de inação, um luto antecipado onde preferiria a própria aniquilação a assumir o custo de ser quem é. Arjuna se dá conta de seu desejo no exato momento em que, sob a escuta analítica de Krishna, percebe que a verdadeira sabedoria não é a fuga do conflito, mas a travessia do fantasma que sustentava sua paralisia. Saí do gozo da queixa, desse "gozar da própria desgraça", quando entende que o desejo não se sacia no imaginário, mas se sustenta na ação no real. É no encontro com a falta, aceitando que a perfeição é uma ilusão e que a vida se dá na fenda entre o que se quer e o que se deve, que ele enfrenta o inimigo que é, no fundo, sua própria recusa em assumir a castração simbólica. Portanto, a paralisia se quebra quando Arjuna deixa de buscar a completude no outro e assume, com os pés no chão da sua batalha, a responsabilidade de seu desejo singular, transformando a paralisia mortal em ato criativo e ético.
O Dharma, essa luminosa ordem que sustenta o cosmos e o reto agir (com responsabilidade), ergue-se no horizonte do Yoga como o farol que guia a alma para além das sombras da ilusão. Enquanto o mundo se agita no turbilhão insaciável dos desejos, na busca frenética por satisfazer o "eu" efêmero, o Yoga convida ao recolhimento, propondo uma silenciosa oposição ao apego/ possessividade. É um caminho, vairāgya, onde a prática constante desmantela as falsas necessidades, devolvendo ao ser a sabedoria do discernimento.
Nessa mesma busca por verdade, a ética da psicanálise emerge não como um código moral, mas como uma bússola que confronta o sujeito com a própria falta. Ela não busca tapar o vazio com o desejo desenfreado, mas promove o "bem-dizer", a possibilidade de assumir o desejo em sua relação com a falta, sublimando-o. Tanto o yoga quanto a psicanálise, encontram-se na travessia, onde o sujeito se desidentifica das projeções mundanas para encarar sua própria essência, despindo-se da necessidade de preenchimento para encontrar a plenitude no ser, e não no ter. O dharma, portanto, é a própria sustentação da vida em conformidade com essa verdade interna, um caminho poético de ser, agindo conforme o que nos cabe, em harmonia com o todo.
O desejo, esse viajante incansável que habita a psique, frequentemente se disfarça com as vestes sóbrias da necessidade ou com a capa firme da vontade, criando um teatro de sombras onde a alma humana confunde fome com o sabor que imagina, e carência com o objeto que busca. Na ótica da psicanálise, o desejo é uma falta constitutiva, um vazio no ser que não busca preenchimento absoluto — pois se preenchido, o desejo morreria —, mas sim a manutenção de sua própria circulação. Quando confundimos o desejo com a necessidade, operamos uma "demanda", exigindo do outro ou do mundo um objeto (uma comida, um amor, uma posse) que prometa tapar o buraco inominável do desejo, esquecendo que o desejo, em essência, é sempre o desejo do desejo do Outro, uma busca por reconhecimento na linguagem. O desejo vive do que não alcança, e ao confundi-lo com necessidade básica, tornamo-nos escravos de um consumo de objetos que nunca satisfazem plenamente.
Paralelamente, sob a lente do Yoga, essa mesma confusão nasce de avidya, a ignorância ou o véu que encobre nossa verdadeira natureza, levando a mente a projetar no mundo externo a sede que é interna. A necessidade, no contexto da vida, é o indispensável, o prana, o alimento que sustenta o corpo. O desejo, por sua vez, transforma-se em apego (kama) quando a mente, na contemplação dos sentidos, se fixa em um objeto, acreditando que ele é fonte de felicidade — o temido círculo vicioso presente no Bhagavad Gita: a contemplação gera apego, o apego gera desejo, e o desejo, se frustrado, gera a ira e a delusão. O Yoga nos convida a cultivar aparigraha (não-possessividade), onde as necessidades da vida se tornam simples e os desejos se alinham com o fluir da própria natureza, e não com a vontade egoica de possuir.
Krishna, servindo como o analista — ou a consciência superior, convoca Arjuna a olhar para além do véu da identidade transitória, desafiando-o a reconhecer o Atman imortal, curando a cisão entre o desejo pessoal e o Dharma (dever cósmico). A intervenção é uma reestruturação cognitiva e um mergulho no inconsciente, onde o arqueiro precisa realizar a "luta contra si mesmo" (o eu egoico) antes de vencer a guerra exterior. O retorno de Arjuna à batalha, após o diálogo com Krishna, não é um retorno à ignorância, mas a um estado de ação consciente e mais livre da possessividade, onde o ego se submete à ordem superior, transformando a hesitação em um ato sagrado e a destruição em libertação.
Portanto, tanto para o divã quanto para o tapetinho, o caminho não é eliminar o desejo, mas desvelar a necessidade real, reconhecendo a falta como motor da vida e o desejo como um hóspede que não deve ser confundido com o dono da casa.

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