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Ao meu caro amigo

Ao meu caro amigo,


O caminho, em sua essência imutável, permanece o mesmo, ainda que a pele que o habita troque de vestes e de eras. É curioso notar como o hoje sempre foi o ontem disfarçado, uma repetição de ciclos onde a casca muda, mas o desafio central do humano resiste: a árdua e simples tarefa de ser. O que nos afasta dessa trilha, contudo, não são as curvas do destino, mas as máscaras que moldamos no barro do medo. Esse medo, arquiteto da paralisia, atua como um mediador traiçoeiro que nos furta a capacidade de simplesmente existir, ignorando que o sofrimento, como bem articulou Mircea Eliade em seus estudos sobre o Yoga, nasce justamente dessa "dor de existir" — o peso de estar preso ao tempo e às formas.
Para o pensamento iogue, essa dor não é um castigo, mas o reconhecimento de que tudo o que é temporal está sujeito ao ciclo de nascimento e morte. Ao buscarmos o "mundo das ideias" como fuga, exercitamos a nossa capacidade de inferir: esse poder fantástico de arquitetar verdades sem o toque da experiência. No entanto, quando essa faculdade se desequilibra, construímos castelos que servem apenas como muros. Tornamo-nos donos de certezas absolutas em um universo que é, por natureza, relativo e fluido. Boicotamos o experimento pelo conceito, negando a essência em favor de uma desconstrução que nos impede de caminhar. Se a vida é um espetáculo que exige presença, por que nos esconderíamos na plateia da própria mente sob o peso de uma angústia estéril?
Viver, portanto, não é um exercício de acerto, mas de fluidez. Compreenda a desconstrução como o pulsar do próprio cosmos — um ciclo de manutenção onde até a dor pode ser combustível para o despertar. Deixo-lhe aqui um convite à liberdade contra a energia estagnada: troque de calçada, tateie o silêncio e o estrondo, abrace o excesso ou a ausência. Ser humano, na plenitude do termo, é aceitar que o corpo e o espírito mantêm a juventude enquanto não se deixam petrificar pelas verdades herdadas.
Trilhe caminhos, saia da linha ou seja correto, mas viva. Respire e flua. Afinal, energia parada não serve para nada.

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