Um Errante, mas não tão Errante
Certo dia, o chamado de uma amiga para "aquela gelada" trouxe a urgência de colocar o "tricô" em dia. Escolhemos o asfalto de um buteco qualquer, onde a contenção de despesas encontra a diversão do real. Falávamos de homens, o tema inevitável, até que uma figura exótica atravessou a calçada com um cãozinho de madame. O sujeito, um ator baiano de fala magnética e sonhos de Chef, acabou por lançar uma cantada em minha amiga. Quando o garçom sentenciou o "vamu fecha o ba", mudamos de balcão para a saideira, e foi ali, entre o avanço do ator e o silêncio do outro, que o acompanhante — o ex-skinhead — passou a existir.
Ao puxar o fio da conversa, o que emergiu foi a densidade do adharma: aquela ação que desarranja a ordem das coisas, o passo dado fora da cadência universal. Ele entregou a crueza de quem habitou o descaminho, a xenofobia e o ódio; um ser humano atordoado pela opressão de uma sociedade cujas limitações ele mesmo ajudou a tensionar. Ali, as linhas entre dharma e adharma, o agir em fluxo e o agir que rompe, não eram paralelas; eram retas de uma maya confusa, esse véu que distorce a percepção e faz o erro parecer destino, uma ilusão de opostos que se entrelaçavam na marginalidade de quem vive à sombra da polícia e do passado. Ele se confessou "maldito", engolindo o talento do desenho e do violão, aprisionado em armadilhas de pensamento que o mantinham no escuro, fruto de um agir que fragmenta em vez de unir.
Nesse encontro, a virada ética não foi um projeto, mas o exercício do nishkama-karma: o agir pelo agir. Minha escuta foi a ação desapegada de quem testemunha o peso do outro. Compreender aquele grito entalado na goela foi o cumprimento de um dharma seco, abrindo espaço para um reconhecimento da humanidade ali posta, sem o filtro do julgamento.
Não me perdi em loka-achara, o senso comum que dita as normas sociais, nem me prendi a uma shastra-vidi de moralidade rígida; apenas reconheci a humanidade dele. No silêncio daquela escuta, a consciência se despiu de juízos e rótulos para que o Ser pudesse, enfim, encontrar o Ser. Foi a ética do Yoga manifesta na sua forma mais pura: o reconhecimento de que, sob as camadas de erro e sombra, pulsa a mesma vida que em mim tenta apenas se expressar.
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