A importância dos Olhos por Leonardo da Vinci x Trataka e o Yoga
Ora, não percebeis que com os olhos alcançais toda a beleza do mundo? O olho, este senhor da astronomia e autor da cosmografia, foi exaltado por Leonardo Da Vinci como o príncipe das ciências e o fundamento de toda a correção artística. Contudo, essa mesma herança ocidental que celebrou a visão como o ápice do conhecimento acabou por consolidar o "cogito" — a supremacia de um pensamento que, ao tentar compreender o mundo, separou o corpo da mente. No Ocidente, o sujeito funda-se sobre uma fantasia de identidade, um "Eu" que se observa e se reconhece como uma imagem isolada. Aprendemos a observar a vida como espectadores distantes, transformando o olhar em uma ferramenta de vigilância e o corpo em um objeto a ser medido pela estética da forma.
O Yoga, em sua essência oriental, propõe o caminho inverso da integração, alertando-nos que o olho é o sentido que mais nos trai justamente por alimentar essa fantasia de separação. A ciência do Trataka e a prática de Asanas surgem como o antídoto para este sujeito fragmentado. Enquanto o "Eu" ocidental precisa de espelhos e rótulos para existir, o Ser no Yoga não precisa de projeções; ele se revela na dissolução da distância entre o observador e o observado. No tapete de prática, ao desafiarmos a ditadura do visual, permitimos que a inteligência do tato e a escuta profunda curem a ferida aberta pelo dualismo. O alinhamento deixa de ser uma busca matemática por perfeição externa para se tornar uma harmonia vibracional onde a pele, o osso e a respiração falam uma língua que a mente racional não consegue traduzir.
Essa transmutação é o que define o verdadeiro termômetro de nossa qualidade de vida. Ao silenciarmos a visão exterior através do recolhimento dos sentidos (Pratyahara), a "janela da alma" deixa de ser um portal para a distração e torna-se um espelho da vitalidade interna (Prana). O sujeito deixa de ser uma construção intelectual — o "penso, logo existo" — para tornar-se uma unidade existencial que apenas flui. Se olhos expressivos dizem mais que nossas pobres palavras, é porque eles revelam um ser que parou de tentar "ver" o mundo como um objeto para, finalmente, "ser" o mundo em toda a sua inteireza.
Ao unirmos a curiosidade investigativa de Da Vinci com a sabedoria não-dualista, compreendemos que a suprema beleza não está na distância que o olho mede até as estrelas, mas no fim de todas as distâncias. A divina arte não é apenas a pintura da realidade externa, mas a dissolução da fantasia do "Eu" que observa na experiência pura do corpo que sente. É nesse silêncio do olhar que a alma finalmente abre os seus caminhos, deleitando-se não apenas com a beleza do mundo, mas com a descoberta de que o observador, o olhar e a beleza são, em essência, um único e indivisível Ser.

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