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A grande arte de respirar





A grande arte de respirar



Arte significa técnica ou habilidade, geralmente ligada à estética feita por artistas a partir de manifestações de emoções ou ideias. Tem como objetivo atrair espectadores conscientes para um significado único e diferente a cada obra de arte. Sob este olhar, sempre considerei o processo de respirar uma arte; primeiro porque para respirar corretamente é necessária habilidade, segundo porque a respiração é o reflexo das emoções e ideias que nos acometem, e terceiro porque respirar conscientemente tem um significado único que é alimentar o grande dom da vida.
Respirar é o processo pelo qual um organismo vivo troca oxigênio e dióxido de carbono com seu meio ambiente, seja através da pele, das narinas e até mesmo da boca. Quando bebês, na respiração, somos capazes de encher toda a barriguinha de ar, inclusive conseguíamos reter este ar por alguns segundos no corpo; tudo ocorria naturalmente sem a instrução da "mama". Não sei se existe tal relação, mas alguns profissionais defendem a importância da respiração abdominal justamente por se basearem no movimento respiratório do bebê. Alegam também que é a respiração mais indicada para acalmar os nervos. O corpo do bebê ainda está em desenvolvimento e, pelo pouco espaço e tamanho de pulmões, a respiração é pra lá de potente, salve quando há problemas pré-existentes. O mesmo não é possível afirmar de um adulto que, apesar de ter o corpo formado, não consegue potencializar a respiração.

Mas quando e por que deixamos de respirar naturalmente? E por que às vezes muitos indivíduos já nascem com seus processos alterados? Seria a genética? Traumas que envolvem até mesmo o nascimento, o ante e o pós-parto? Pode se tratar de um indivíduo que viveu fortes emoções? Mas quem não viveu? Sei lá como e por que, mas o fato é que muitas pessoas que iniciaram suas práticas de Hatha Yoga comigo apresentaram algum tipo de deficiência na respiração, seja pela ansiedade, pela falta de consciência ou vivências que as conduziram a isto. Talvez a vida corrida estimule este tipo de processo. "Estou com pressa" ou "estou atrasado" são frases bem conhecidas; a paz, a parcimônia e o estar presente são quase uma extinção. Há tanto o que fazer que a respiração se torna algo tão sem importância, tão secundário, terciário e inutilizável. Será que há realmente tantas coisas a cumprir? Parte destas coisas são realmente necessárias? Talvez não seria melhor adiar parte delas? Ou será que você não está adiando o que realmente é necessário? O que passou a ser prioridade em nossas vidas? Por que a saúde nunca está na prioridade na maioria das vezes?

Tenho tentado, com grandes adaptações nas aulas que ministro, chamar mais atenção para a respiração e seu ritmo. Sempre lembro ao praticante que ele está apenas uma hora comigo e que as demais vinte e três horas é de total responsabilidade dele respirar consciente. Nem adianta fazer bonito na frente do instrutor; o que vai valer mesmo são as outras vinte e três horas. Será no dia a dia que o praticante realmente praticará Yoga, longe do professor e longe da repetição. Nas práticas que ministro, quando aplico técnicas respiratórias, geralmente mantenho o aluno de dez a quinze minutos num exercício de respiração, com as devidas adaptações. Este é um tempo razoável para realmente proporcionar algum efeito; afirmo isto por conhecimento de causa e pelo que estudei das técnicas de respiração.
Uma grande minoria, cerca de um por cento dos que praticam Hatha Yoga comigo, perde o ritmo nos primeiros cinco minutos. Estes são os alunos que apresentam maior dificuldade, principalmente no controle das emoções; não raro perdem também a concentração e a proposta da técnica. São também dos tipos mais reclamões. Talvez se pudessem manter o exercício sentiriam o grande benefício como os demais noventa e nove por cento sentem. Aliás, os noventa e nove por cento que se sujeitaram sempre agradecem muito no final da prática, sentindo-se com a respiração ampliada e com mais energia. Ao contrário do que muitos defendem, não acho que a respiração abdominal seja única e suficiente para estabelecer um ritmo tranquilo ao corpo. Acredito que a respiração mais adequada é a respiração completa. É certo que muitas pessoas desenvolvem uma respiração tão curta e bloqueada no peito que fica difícil não orientá-las para respirar na parte baixa, abdominal, até que se acostumem com a ideia do respirar lento e profundo, que é uma orientação imprescindível.

O ar que entra no corpo pelas narinas — única forma eficaz de filtrar o ar — enche a região do peito e depois a região do tórax, por último uma parte do abdome. O abdome se move na respiração por reflexo do movimento do diafragma. Quando o ar começa a penetrar no corpo, lá na região do peito, o diafragma começa a descer e, quando soltamos o ar, que também deve ser realizado pelas narinas, o diafragma volta a subir. Esta é uma explicação simples apenas para que se tenha uma ideia sobre a passagem do ar e por onde ele pode circular. A concentração na respiração em um só ponto não é suficiente e certamente comprometerá o funcionamento do diafragma. O diafragma não só liga a parte superior e a inferior do corpo, mas também é um estimulante para o processo de digestão e processos de eliminação. Fico pensando com meus botões... será que é por isto que muitas pessoas estão acumulando uma certa gordura na cintura? Não teria uma relação com a forma de respirar? Claro, não seria a única causa, pois a combinação de excessos de alimentos contribui, mas uma certa deficiência no sistema de eliminação teria relação com a respiração.
Quando um praticante aterrissa numa aula de Hatha Yoga, iniciamos um processo de reeducação respiratória. Como instrutores, auxiliamos os praticantes a tomar consciência da respiração isolando parte a parte: abdome, tórax e peito. À medida que o praticante avança, as instruções são voltadas para uma respiração completa que passa por todas estas partes. Outra coisa que tenho defendido muito é o ato de exalar o ar pelo nariz, mantendo a lubrificação necessária dos cílios nasais, que são responsáveis pelo processo de filtragem do ar. E não venha me dizer que o ar da cidade é poluído e que não adianta respirar corretamente; adianta sim, os cílios nasais existem para filtrar o ar poluído. Pense bem nas próximas respirações, deixe de exalar o ar pela boca e faça pelas narinas de forma mais lenta e profunda. Apesar de muitas modalidades esportivas estimularem a exalação pela boca, a forma mais correta para manter o processo de filtragem em bom funcionamento é pelas narinas, pois é justamente o ar quente que exalamos que umidifica os cílios.

O ritmo também é muito importante; muitos respiram caoticamente e nem dão tempo suficiente para ocorrer a famosa troca gasosa. Imaginem: se colocamos oxigênio novo para dentro e logo exalamos dióxido de carbono, numa respiração curtinha estamos apenas acumulando dióxido. É isso que o instrutor de Yoga quer dizer com intoxicação do corpo; se o dióxido se acumula, o que ocorre com o sistema nervoso, músculos e articulações? Obviamente se intoxicam. Para um processo razoável, deveríamos no mínimo inspirar em quatro segundos e exalar em quatro segundos, tendo oito segundos em cada ciclo. Percebo que aquele um por cento que não aprecia os exercícios para de respirar num determinado momento ou não consegue chegar a três segundos de inspiração, alegando que se cansam rápido. Os pulmões são capazes de captar cerca de três litros de ar por respiração, pois podem armazenar cinco litros. Então... como anda sua respiração? Tem sido uma arte ou esboço do jardim da infância?
Fica também uma proposta de reflexão: será que quando suas emoções estão transbordadas, a respiração se encontra num ritmo acelerado ou você nem mesmo consegue respirar? Ou nem mesmo percebe o que ocorre à sua volta? Por que será que no inconsciente isto é perceptível? Já se depararam com um indivíduo com as emoções transbordadas e alguém disse: "Calma! Respire fundo!"? Nem precisa de maiores comprovações para concluir que uma respiração lenta e profunda é o melhor antídoto para acalmar as emoções e controlar pensamentos confusos e caóticos. Todos nós, pobres mortais, já passamos por situações onde o coração quase salta pela boca. Aí está: é possível controlar a situação quando se tem o controle da respiração. Aliás, segundo os indianos, quem não controla a respiração não controla a mente. O importante é ter ciência da importância de respirar, do movimento, do trajeto do ar e do ritmo. A grande proeza é não se deixar abater pelas adversidades do dia a dia, caso contrário não haverá outro resultado senão estresse. A grande arte de respirar mantém o gerenciamento de energia para enfrentarmos as adversidades sem gastar energia com situações que só subtraem o Ser. Pense bem, aprofunde-se e atente à sua respiração. Lembre-se que exercícios específicos de respiração estão presentes nas técnicas do Hatha Yoga ou delas extraídas; outras atividades não possuem este direcionamento. Através do Pranayama, o controle da energia vital, é possível aumentar a capacidade respiratória e as defesas do corpo. 

Viva esta arte e respire!

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