Cuidar de Si mesmo
Às vezes, a vida nos atropela sem que percebamos a placa do caminhão. No silêncio de um retiro de desintoxicação ayurvédica no interior de São Paulo, entre práticas de Yoga e o amparo de terapeutas dedicados, fui confrontada com a minha própria negligência. O texto a seguir é o registro desse despertar — uma investigação sobre onde termina o nosso auxílio ao outro e onde deve, obrigatoriamente, começar o zelo por nós mesmos.
Cuidado significa atenção, zelo ou cautela. Pergunto-me, então, neste final de outubro que agora se despede: quanto tenho cuidado de mim e quanto tenho me negligenciado? Foi nesta fase mais adulta que me dei conta de que cuidei muito pouco de mim nestes últimos tempos, e embora sinta que vou maturando, reconheço que ainda há muito o que desbravar nesse solo interno. O meu traço de personalidade, somado à profissão, fez de mim uma ouvinte paciente, mas aprendi que cada um possui um limite intransponível. No processo de ajudar o outro, entendo agora que só posso caminhar até a “página 12”; da “página 13” em diante, o percurso é solitário e sagrado, pois só o outro pode fazer por si mesmo. Não me cabe colher resultados alheios e muito menos me exaurir com situações que não me pertencem, sob o risco de deixar minhas próprias questões ao relento, independentemente dos laços de família, amizade ou ofício.
Tentei, desde então, manter a neutralidade diante dos dramas alheios, compreendendo que cada ser segue seu próprio dharma e seu tempo particular. Não existe caminho melhor ou pior, apenas trilhas moldadas por valores pessoais e pela capacidade de lidar com as diferenças universais. Partindo desse princípio, resolvi rever meus hábitos desregrados e me colocar no lugar de ser comum — pois, apesar de instrutora de Yoga, não sou a Mulher Maravilha e muito menos Madre Teresa de Calcutá. Comecei a me questionar sobre as horas roubadas do sono, sobre o alimento que fere o corpo mesmo quando a mente sabe o dano, e sobre o porquê de ligar o noticiário quando o que minha alma pede, ao amanhecer, é apenas o café tomado em paz e silêncio. Por que não cuido mais de minhas refeições? Por que saí naquela balada sábado que não me levou a nada e hoje me tirou energia para ir à feira comprar coisas saudáveis? Por que me comprometi com coisas alheias enquanto precisava abastecer minha própria vida com o que é decente?
Percebi o quanto me comprometi com o que era de fora enquanto minha própria geladeira, meu próprio sustento emocional e físico, ficava em segundo plano. Tornei-me sensível aos temperos da vida, aos horários tardios e aos ambientes que frequento. Notei que, muitas vezes, absorvi problemas alheios e, por uma ilusória "boa convivência", abdiquei de mim para retribuir gentilezas que me custaram caro. Comi o que não queria, bebi o que não devia e dormi quando não precisava, tudo para me doar ao outro. Mas a troco de quê? Companhia, controle ou falta de amor-próprio? Olhando através das lentes da filosofia que pratico, percebo que essa dedicação desmedida ao outro é, na verdade, um conhecimento errôneo (Viparyaya). Muitas vezes acreditamos estar praticando a caridade ou o desapego, quando na verdade estamos mergulhados em uma percepção equivocada da realidade. Esse "conhecimento falso" nos faz crer que somos indispensáveis à trilha alheia, alimentando um orgulho sutil que nos afasta do nosso próprio centro.
É preciso discernir a linha tênue que separa o verdadeiro Seva (serviço desinteressado) das inclinações do ego (Asmita). O Seva autêntico nasce da plenitude e transborda sem drenar a fonte; ele é uma oferenda que não exige o sacrifício da própria integridade. Já o ego, em sua busca por validação ou controle, frequentemente se disfarça de prestatividade para se sentir necessário. Quando me exauro para "salvar" o outro, não estou mais em Seva, mas alimentando a ilusão de que sou o motor da evolução alheia. Essa confusão é o que nos leva ao esgotamento, pois o ego busca resultados, enquanto o espírito apenas flui.
"É preciso discernir a linha tênue que separa o verdadeiro Sevā (serviço desinteressado) das inclinações do ego (Asmitā). O Sevā autêntico nasce da plenitude e transborda sem drenar a fonte; ele é uma oferenda que não exige o sacrifício da própria integridade. Já o ego, em sua busca por validação ou controle, frequentemente se disfarça de prestatividade para se sentir necessário. Quando me exauro para "salvar" o outro, não estou mais em Sevā, mas alimentando a ilusão de que sou o motor da evolução alheia. Essa confusão é o que nos leva ao esgotamento, pois o ego busca resultados, enquanto o espírito apenas flui."
Separar-se do problema do outro não é, contudo, um mergulho no individualismo árido. Não se trata de indiferença ou isolamento, pois sabemos que nenhum ser é uma ilha e que afetamos uns aos outros inevitavelmente. A verdadeira sabedoria reside em compreender a interdependência sem gerar codependência. O individualismo ignora o impacto que causamos no todo; o discernimento yóguico, por outro lado, entende que estar bem energeticamente e íntegra consigo mesma é a maior oferta que se pode fazer ao coletivo. Ao não permitir que o peso do outro me paralise, preservo a luz que me permite, de fato, amparar quando necessário, sem que ambos afundemos. A ajuda real nasce da abundância interna, não da escassez compartilhada. A verdadeira interconexão exige que cada parte da teia seja forte o suficiente para sustentar a si mesma, para que o todo não se rompa.
Hoje, minhas experiências servem como fontes de discernimento e trazem uma nova forma de me posicionar. Já comecei a colocar em prática, com muita leveza, o limite da minha escuta. Não quero mais ficar quatro horas ouvindo sobre os problemas alheios enquanto minha lista pessoal aumenta, nem quero absorver o que é do outro, porque nem mesmo consigo resolver facilmente o que é meu. Não quero mais entrar em processos de procrastinação de mim mesma. Doei meus ombros amigos e fiz o que pude, ouvi a mesma história zilhares de vezes, mas manter esse peso só faria com que eu adiasse minhas próprias soluções. Oferecer o ombro é um ato de luz, mas permitir que ele se torne um apoio ininterrupto não é saudável nem para mim, nem para o outro. O silêncio e a quietude tornaram-se fundamentais para encontrar soluções e "refrescar a cuca". Descobri que, se eu mesma fiz a escolha de me deixar de lado, agora preciso me resgatar desse atropelamento invisível causado pela síndrome da onipotência, que nada mais é do que outra face desse conhecimento errôneo que turva a nossa visão de quem realmente somos.

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