Sou passageira de percursos marcados pelo asfalto e pelo cansaço. Entre o coração da Brigadeiro Luís Antônio e o destino que oscila entre o Itaim e o Morumbi, traço minha rotina sob o signo da linha Terminal Capelinha. Ali, o transporte se apresenta sob um design esquisito, uma arquitetura do equívoco, onde a estética e a lógica parecem ter brigado no papel.
O ônibus nos seduz com degraus baixos, um convite suave ao embarque, para logo depois nos trair com escadas internas que brotam antes da catraca, degraus que nos empurram ao fundo do veículo, onde a porta de desembarque se esconde, solitária. As poltronas são sentenças de imobilidade: estreitas, com encostos que negam a espinha e braços fixos que aprisionam quem escolhe a janela. Dizem que o desenho atende à inclusão, mas na urgência da demanda, o que se vê é a exclusão do conforto.
O trajeto é um combate. O solo da Brigadeiro, ferido por buracos, soma-se ao humor de motoristas que conduzem não pessoas, mas fardos. São frenagens que lançam o corpo ao inesperado; são "costuradas" e velocidades que transformam o coletivo em risco. Em dois meses, vi a queda se tornar rotina: vi uma cabeça chocar-se contra o metal da poltrona em um solavanco seco. Eu mesma, em um desequilíbrio forçado, fiz do outro meu amparo para não beijar o chão.
Na sexta-feira retrasada, a grosseria vestiu uniforme. Solicitei a parada no último ponto da Brigadeiro, mas o motorista levava pressa onde deveria haver serviço. O veículo só parou porque o semáforo lhe barrou o caminho, e ali, no meio da rua, ultrapassando a fila de outros ônibus, fomos despejadas.
Tentei registrar o erro com a lente do celular, mas colhi o veneno. O homem, tomado por uma fúria súbita, buzinou, xingou e me ofereceu o dedo médio como resposta. Quando ele se levantou da poltrona e abriu a porta, o medo me paralisou. Tive a certeza de que a calçada seria palco de uma agressão. O registro falhou, vencido pelo instinto de sobrevivência: fugi o mais rápido que pude.
Penso em nós, seres que saem de casa para o trabalho e encontram essa guerra silenciosa. Deve haver mil relatos iguais em outras linhas, mil existências suportando o insuportável. Olhamos para o Metrô com o desejo de quem busca a dignidade da rapidez, embora saibamos que ali a sede de espaço é a mesma. O transporte paulistano precisa deixar de ser um exercício de sobrevivência para se tornar, enfim, o direito de ir e vir sem o peso do medo e da dor.
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