Pular para o conteúdo principal

O Elegante



O Elegante


Dizia o mestre do corte e do deboche que a elegância não se costura: ela é um erro geográfico do destino, nasce com o indivíduo como um brilho incurável no olhar. Elegância é a geometria do espírito, uma dança invisível entre o porte e a pausa, muito antes de ser o rótulo de uma grife ou o tilintar correto dos talheres de prata.

Ser elegante é dominar o dom da neutralidade. Mas cuidado: não confundamos contenção com covardia. A neutralidade do elegante é estética e emocional; é a capacidade divina de não poluir o próximo com os próprios detritos, de não transformar o jantar alheio em um confessionário de angústias ou um palanque de arrogância. Ele é neutro porque é seguro, não porque é nulo. A omissão é o refúgio dos mornos; a elegância é o escudo dos fortes. O elegante sabe dizer "não" e sabe discordar, mas o faz com lâmina de seda, sem precisar de holofotes ou gritaria.

No asfalto hostil de São Paulo, a elegância é o sorriso que desarma o caos. É a pontualidade sagrada, o respeito pelo tempo alheio — esse recurso não renovável que o grosseiro dissipa sem culpa. O elegante não promete o sol se sabe que só pode entregar a sombra; sua palavra é seu único e verdadeiro traje de gala. Ele entende que, diante da existência, somos apenas seres humanos cumprindo papéis provisórios, e por isso transcendeu a necessidade de diminuir o outro para se sentir grande.

Contudo, entre as ladeiras mineiras e os cruzamentos da metrópole, a elegância tornou-se um fóssil. O "novo rico", de bolso cheio e alma em frangalhos, confunde cartão de crédito com salvo-conduto para a barbárie. Interrompe falas, rouba fatias de queijo, invade preferenciais com o porte de arma de uma habilitação. São, como diria o cronista, tubos processadores de matéria orgânica, atravessando a vida sem jamais enxergar o próximo.

Onde foi parar o "bom dia" das crianças? Onde se escondeu a cortesia que as mães cobravam nas visitas? A batalha pelo conforto material é louvável, mas o dinheiro é um péssimo cosmético para a pobreza de espírito.

A elegância é um artigo de luxo que nenhuma conta bancária pode comprar, e o mundo está saturado de mendigos em carros importados. Continuarei dando passagem e cultivando essa utopia de seda, pois nada é mais cafona do que o indivíduo que se cala diante da injustiça sob o pretexto de ser "educado".

Essa suposta elegância de quem não se posiciona é apenas uma forma gourmet de covardia. O verdadeiro elegante tem brio, tem lado e tem valores. Se o mundo virou um chiqueiro onde o egoísmo é a regra, prefiro ser o porco que sabe usar o guardanapo e que, se necessário, usa a própria elegância para colocar os bárbaros em seus devidos lugares — com um sorriso no rosto e a ponta do sapato devidamente lustrada.

Comentários

Renata Rainho disse…
Elaine eu sei que por causa da pedofilia, as crianças de hj não devem falar com estranhos mesmo dentro de caso, saiu uma matéria na Veja a respeito...
Elaine Paulino disse…
Engraçado né? O que seria estranhos, que conceito é este?
As vezes, aparece em casa um familiar que nunca vimos na vida. Alguns abusos sexuais acontecem dentro do seio da própria família. Que cousa né?
Elaine Paulino disse…
Está tudo confuso, falta de educação virou sinônimo de hiperatividade e agora o cumprimento também é eliminado por conta de você estar numa condição de " estranho"

Postagens mais visitadas deste blog

O Tantra como Estética da Libertação e a Cura da Miopia Ocidental.

  O Tantra como Estética da Libertação e a Cura da Miopia Ocidental. A consciência repousa no abismo de Shiva (a realidade absoluta, o substrato de pura luz), o silêncio onde o Ser é um estado de Prakasha (o brilho autoluminoso da consciência) que o Shaivismo da Caxemira — a joia não-dualista do Tantra — preserva como o mistério da imanência absoluta. Antes que o tempo fosse contado, as sementes desta sabedoria já germinavam nas margens do Rio Indo, em cultos ancestrais pré-arianos, muito antes de sua sistematização entre os séculos VI e IX d.C., quando o Tantra (etimologicamente a teia, o tear ou o que expande o conhecimento) surgiu como uma reação vibrante ao exclusivismo dos ritos védicos, tecendo a espiritualidade na própria carne do mundo. Diferente do Vedanta que reconhece o mundo material (vyavahara) como empírica ou funcionalmente real. Você não ignora uma parede ao caminhar, mas qualifica a realidade da matéria de maneira diferente, o sábio da Caxemira afirma que o univers...

O Simulacro da Síntese: Uma Anatomia do Misticismo Burocrático

Introdução Contextual  "O campo da espiritualidade contemporânea é frequentemente atravessado por uma tensão invisível: o desejo de transcendência versus a necessidade de controle. Em muitos movimentos que se apresentam como sínteses entre Oriente e Ocidente, observamos o nascimento de uma 'alfândega conceitual' — um sistema onde a experiência do sagrado é fatiada em métricas de progresso e manuais de utilidade social. Este ensaio, escrito a partir da observação de dinâmicas de alto controle e da resistência ética dentro de instituições espirituais, busca dar nome ao mal-estar silencioso que acomete muitos praticantes. Sem recorrer a personalismos, o texto disseca a estrutura da mitomania e da exaustão como virtude, oferecendo um espelho para aqueles que sentem que o Yoga 'fugiu pela janela' no momento em que a instituição se tornou o fim em si mesma. É um convite ao resgate da soberania intelectual e da espiritualidade livre de organogramas."  O Simulacro da ...

Arjuna diante de uma covardia moral?

  Arjuna diante de uma covardia moral? Saudações caros leitores. Depois de algumas batalhas psíquicas que travei, volto com essa articulação do Bhagavad Gita com a psicanálise. O destaque é para o guerreiro Arjuna  forte e corajoso, porém vulnerável; nobre, mas confuso, contudo, no momento crítico da peleja, a coragem dele cede lugar a uma profunda angústia, a desolação de ver a destruição da família.  No coração do vasto épico Mahabharata, quando os exércitos Kurukshetra se encontram e o estrondo das conchas de guerra anuncia o apocalipse de uma era, o Bhagavad Gita emerge como uma canção divina, um respiro de luz no meio da escuridão iminente. Não é apenas o relato de uma batalha física, mas o diálogo profundo entre a alma humana, representada pelo guerreiro Arjuna, e a consciência suprema, manifestada na forma de Krishna, seu cocheiro.  Essa obra é uma marco na minha vida por ser meu primeiro contato com yoga que ocorreu em minha adolescência. Espero que você desf...