Razão para ir a India?
Quando ainda estava fazendo minha formação de Yoga, lembro-me bem dos comentários sobre a Índia. Tudo parecia envolto em mistérios e um romantismo quase magnético; aquilo gerava uma vontade danada de pegar o primeiro voo. Tudo ao meu redor cooperava com esse impulso: eu estava mergulhada na filosofia do Yoga, cheia de informações frescas e sentindo um universo inteiro a desbravar, movida por aquela ânsia típica do praticante iniciante de aprender e compartilhar. Mas, mesmo com esses estímulos e uma certa "falsa vontade", o tempo passou e concluí que, na verdade, eu não tinha motivo real para aquela viagem. Eu via os outros irem e voltarem, narrarem suas histórias cheias de desafios ou de êxtases românticos, enquanto minha vida seguia outros ritmos.
Certo dia, porém, um chamado diferente bateu à minha porta. Investi em pesquisas, visitei o site do Pedro Kupfer e li suas dicas elegantes e conclusivas — que, aliás, recomendo a qualquer um, junto com o indispensável Lonely Planet. Curiosamente, ao ler aqueles conselhos objetivos sobre a realidade nua da Índia, eu adiei ainda mais a partida. Eu não buscava um pretexto ou um destino turístico; o meio do Yoga pressiona o instrutor, os alunos perguntam se já fomos para lá como se fosse um sonho obrigatório, mas para mim nunca foi um sonho. Foi algo mais denso: tornou-se uma necessidade.
Essa necessidade nasceu de um processo de aprofundamento espiritual que mexeu profundamente com meu Ser. Entendi que a viagem seria o palco para a queima de Samskaras. Para o praticante interessado, o Sadhaka, é preciso entender que o que chamamos de "destino" é, muitas vezes, apenas o resultado do Karma — a ação que gera uma impressão profunda nas profundezas do ser. Se tive descaso com crianças no passado e hoje sinto uma urgência em trabalhar com elas, essa urgência é o meu Samskara. A maioria das pessoas diz "deve ser meu Karma", mas o praticante sabe que o Karma foi a ação; o Samskara é a marca que ficou. E a Índia, com sua intensidade, é o fogo do Tapas que nos permite contatar esses sapatos velhos de muitas vidas e decidir se vamos eliminá-los ou criar novos.
A viagem tornou-se inevitável. Quando a decisão de ir finalmente se concretizou, foi através de uma trama de forças que pareciam cooperar. Encontrei Sukalpa nos grupos de meditação do Ananda Marga e, entre um comentário e outro, descobrimos o suporte mútuo para vencer o medo de viajar sozinhas. Depois veio Aradhana com a dica preciosa: seguir com um monge, Dada Sidesh, que levava grupos anualmente. E logo o grupo cresceu com o casal Ranjana e Pardipee. Ter um monge indiano conosco era nosso porto seguro contra as "roubadas" culturais, permitindo que focássemos no que realmente importava.
Em dezembro, enfim, partimos. Eu e Sukalpa fomos via África do Sul, carregando uma expectativa que, por mais que eu negasse o romantismo, ainda tinha um ar infantil de quem descobre o mundo. Mas o ritmo mudou quando embarcamos de Joanesburgo para Mumbai. O contato direto com os indianos no avião foi o primeiro choque de Viveka — o discernimento necessário para entender que nossa lógica ocidental não tem valor algum ali. Desembarcar de madrugada em Mumbai foi o início da queda no buraco da Alice.
A Índia não é um resort de espiritualidade açucarada; é um país que carrega cinco mil anos de guerras, invasões e símbolos coexistindo com o que chamamos de progresso. Você encontrará lá o que suas ideologias buscam, mas o verdadeiro Sadhaka deve ir além. Espiritualidade é completude: é manter a presença diante do taxista que lhe passa a perna e do comerciante sábio que lhe fala de fé. Minha dica é que você não seja um mero turista; o cotidiano indiano ensina mais que qualquer monumento.
Lá, a lógica se modifica e os desafios invadem o dia a dia, forçando-nos a escolher entre manter velhos hábitos ou transcender. Não compre ideologias prontas, nem as minhas. Seja livre para experimentar, desconfie de tudo e, acima de tudo, não reprima o que sente. Se a raiva surgir, deixe que ela venha e seja observada. A viagem à Índia é, no fim, um espelho implacável: se você for para lá esperando encontrar o sagrado sem estar disposto a encarar o próprio caos, o que exatamente você espera queimar? Ou será que você está apenas levando seus velhos Samskaras para passear em um cenário mais exótico?
Comentários