Mulheres na Índia, Mulheres em toda parte?
Em dezembro passado, deixei o Brasil envolta na crença de que meus pés habitavam o chão da realidade quanto às expectativas sobre a Índia. Embora estivesse amparada pelas valiosas informações do Lonely Planet, gentilmente indicado por um amigo, a prática me ensinou que manter os pés no solo exige, acima de tudo, a habilidade da adaptação. É imprescindível que as mulheres consultem guias e relatos antes de se lançarem a esse destino. Talvez eu tenha chegado com um olhar tingido pelo pessimismo, o que contribuiu para agravar as situações que vivi: as exaustivas horas de voo, o cansaço profundo e o fuso horário misturaram-se a um cenário de barricadas, homens empunhando espingardas, detectores de metais e revistas constantes — rigores aos quais os sentidos brasileiros não estão habituados. Tudo isso compunha uma atmosfera densa, que pesava sobre a minha jornada.
Essa densidade tornou-se absoluta quando eu e minha companheira de viagem nos percebemos perdidas. Deveríamos embarcar em um voo doméstico de Mumbai para Delhi, mas, até encontrarmos o portal de embarque, transitamos por corredores incertos e locais proibidos, amparadas apenas pelo recorrente ditado indiano: “Vai dar tudo certo, madame”. O nervosismo, contudo, já me habitava. A primeira vez que encarei o amontoado de taxistas sikhs, com seus turbantes imponentes, senti o impulso quase irresistível de regressar ao Brasil. Lembro-me nitidamente dos olhares penetrantes daqueles homens. O ar do aeroporto tornara-se irrespirável para mim, e passei a não confiar em ninguém — nem mesmo na própria sombra.
Cada cultura guarda suas particularidades, e as indianas distanciam-se vastamente das brasileiras. Esqueçam o "Caminho das Índias"; aquilo é apenas um romance que, apesar de alguma pesquisa, foi omisso em informações essenciais para quem deseja verdadeiramente circular pelo país. No norte e nordeste, onde as sombras de invasões passadas parecem moldar o presente, encontrei mulheres que são ilhas reservadas. O diálogo não flui com facilidade; o silêncio é a norma, e muitas vezes é a voz masculina que preenche o espaço das respostas. Ali, a mulher solteira é quase inexistente e o sistema de castas dita destinos desde o berço. Sabe-se que, historicamente, com a invasão muçulmana, as mulheres eram sequestradas para haréns; talvez por esse legado, mesmo não sendo muçulmanas, as mulheres do norte guardam uma postura submissa e contida. Soube, inclusive, que as viúvas de outrora adquiriram o hábito de se lançarem à pira funerária de seus maridos para evitarem o sequestro.
Tanto muçulmanas quanto hindus cultivam esse recato. Aos curiosos diante das burcas, cabe o aviso sobre a inconveniência de fotografá-las sem permissão; tal ato pode ser o estopim para graves confusões. Como turistas, visitar outro país é como entrar na casa de outrem, onde a boa conduta é a única garantia de segurança. No que tange às vestimentas, exibir ombros ou pernas só é seguro sob a proteção de um grupo masculino; caso contrário, o assédio é uma sombra fatal. Reza a lenda — e os registros de blogs e guias confirmam — que a violência contra estrangeiras é uma realidade latente. A pele branca é vista como um sinalizador de riqueza que inflama os sentidos locais.
Presenciei essa vertigem num museu no Rajastão. Uma amiga do grupo, fascinada e sorridente, perambulava com a leveza brasileira até que um pedido de foto por um jovem indiano multiplicou-se em segundos: cerca de cinquenta garotos a cercavam em um estado de excitação perigoso. No desespero, sinalizei socorro para a segurança do museu — uma mulher que, de prontidão, sacou um bastão de bambu e dispersou a multidão com golpes precisos, alertando minha amiga a nunca mais posar para fotos com homens por lá.
Diferente dela, meu biotipo fundia-se à paisagem. Confundida com bengali, recebi mais respeito que assédio — uma vantagem ilusória que encontrou limites num trem. Um senhor indiano, intrigado por eu não cobrir a cabeça e possuir cabelos curtos, questionou-me asperamente sobre meu marido e família. Ao saber que eu viajava só, sentenciou que eu deveria alisar os fios com óleo de mostarda. Ri, levando na esportiva, sem saber que o Brasil era para ele um estado desconhecido e meu corte de cabelo, um código terrível: soube depois que, antigamente, policiais cortavam os cabelos das prostitutas para marcá-las. Aos olhos de alguns, eu carregava a marca da desonra.
Se julgada a grosso modo, a Índia revela-se uma sociedade de machismo ancestral, onde direitos básicos como emprego, divórcio e até banheiros públicos são negados. Muitos sanitários são controlados por homens, tornando o ato de satisfazer uma necessidade um risco de violência sexual ou doenças como a cistite. Paradoxalmente, a "ocidentalização" tem retirado direitos; para certas autoridades, o uso de calças jeans justificaria o abuso, enquanto o saree seria a única armadura aceitável. Nesse cenário, conheci uma massagista viúva de 34 anos com rosto de 44, estigmatizada por trabalhar fora e ganhando um terço do salário masculino, obrigada a oferecer limpezas de pele "por fora" para sobreviver.
Contudo, a Índia é feita de paradoxos. Soubemos que, em tempos de escassez masculina, sociedades tântricas ergueram templos que celebravam a fertilidade em imagens eróticas para repovoar a nação. Essa busca pela vida pulsa em Rishikesh, onde um indiano leu minha mão no Ashram de Dayananda e me chamou de "gata arisca" por não ser uma esposa obediente. Ri, lembrando-me da liberdade das índias na carta de Caminha, mas concluí que, em qualquer latitude, o sexo frágil ainda caminha sob risco. Ser mulher ali compromete o patrimônio; o sistema de dotes pode desmanchar casamentos se o pagamento falha, deixando a noiva à margem. Além disso, a mulher solteira não pode registrar seus filhos, tornando-os invisíveis para o Estado.
O problema não reside na estrutura da cultura, mas no mal uso que se faz dela. Em qualquer lugar do mundo, existe um choro sufocado e alguém precisando ser tratada apenas como humana. Seja na consagração da Mãe no ashram, seja na devoção à Nossa Senhora Aparecida, a força feminina é um símbolo universal. Ao medirmos esse universo, as barreiras caem. Entre as matronas de personalidade de ferro que enfrentam homens fisicamente e as jovens contidas, as singularidades do feminino revelam uma irmandade que nos aproxima, independentemente do solo que pisamos. Olhem para a imagem de Visnu e Lakshimi: entre o mito da abundância e a sobrevivência real, a força da mulher é o que mantém o universo em pé. E isto era apenas o começo.
Ao olhar para trás e revisitar as poeirentas estradas do Rajastão ou o silêncio austero do trem para Delhi, compreendo que a Índia não é um destino, mas um espelho. As barricadas, os olhares de milênios e o metal frio dos detectores de metais foram apenas a moldura de um quadro muito mais profundo: o da eterna luta da mulher para habitar o próprio corpo com segurança.
Aprendi que o silêncio da jovem indiana e a autoridade absoluta da matrona não são opostos, mas as margens de um mesmo rio. Um rio que carrega as cicatrizes das invasões, o peso dos dotes não pagos e o estigma dos cabelos curtos, mas que também nutre a força indomável de quem sobrevive em um mundo desenhado por mãos masculinas. A Índia me mostrou que a "ocidentalização" é uma vestimenta fina, uma calça jeans que mal esconde as raízes tântricas e as leis de castas que ainda pulsam no asfalto quente.
Seja sob o teto sagrado do Ashram de Aurobindo, onde as lágrimas das meninas por amores impossíveis soam como as de qualquer jovem brasileira, ou no vagão exclusivo do metrô de Delhi, a mensagem é a mesma: o choro sufocado não conhece fronteiras, mas a resistência também não. A Gulabi Gang e a massagista viúva que luta pelo seu terço de salário são faces da mesma moeda — a de uma humanidade que, apesar de ferida, insiste em florescer.
Volto para casa com a certeza de que ser "gata arisca" é, em muitas partes do mundo, a única forma de não ser domesticada pelo medo. Entre os mitos de Lakshimi e a crueza dos banheiros públicos, entendi que a verdadeira viagem não foi cruzar o oceano, mas atravessar a pele do outro para descobrir que, no fundo, todos ansiamos pela mesma dignidade simples: a de sermos tratados, independentemente de dotes, de raças ou de cabelos, apenas como humanos.
A Índia continua em mim, não como um cartão-postal, mas como uma prece de alerta. Pois, como as matronas que não hesitam em erguer o bambu para proteger o que é justo, aprendi que a doçura feminina só é plena quando acompanhada de uma força capaz de sustentar o mundo.
E isto, queridos leitores, foi apenas o começo do meu próprio despertar.


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