Mulher, Mulher! Que escola que você foi ensinada?
Começo esta reflexão com uma estrofe da música de Erasmo Carlos que era cantada pela minha mãe. Hoje ela já não canta tanto, mas continua firme em sua caminhada. Se hoje posso escrever estas linhas e expressar minha voz, é porque herdei dela a consciência de que nossa existência é uma conquista diária.
"Mulher, mulher! Que escola você foi ensinada? Jamais tirei um 10. Sou forte, mas não chego aos seus pés."
Esses versos sempre me pareceram um reconhecimento de superioridade — talvez um escudo necessário que minha mãe ergueu para enfrentar as injustiças que sofreu. Meu pai, alcoólatra e frequentemente violento, fez com que a separação ocorresse muito cedo. O trauma foi tamanho que, aos oito meses de gestação, um susto terrível causado pela violência dele me fez "escolher" ocupar apenas o lado esquerdo do corpo dela. O resultado foram dores atrozes para ela e, para mim, o "brinde" de uma orelha de abano.
Dessa união curta, ela extraiu lições de ferro: ninguém muda ninguém, e a passividade excessiva — o choro calado e a expressão renegada — é um prato cheio para carrascos.
Para ilustrar essa dinâmica entre a dor e a força, recorro à mitologia hindu sobre Shakti — a Energia. Dizem que Shiva permanecia em seu estado imutável até que ela, Shakti, se manifestasse. Só então ele começou a se mover, dando início à dança cósmica.
No mito, Sáti, filha de um brâmane, voluntariou-se para cuidar de Shiva. Enquanto ele meditava, ela zelava pelo espaço: trazia leite, frutas, acendia incensos e adornava o ambiente com flores. Isso não era submissão, era cuidado — a inclinação natural por conforto e beleza que reside no feminino e que deve ser uma escolha, nunca uma imposição. Você pode ser uma mulher moderna e não gostar de nada disso, e está tudo bem; isso não a faz mais ou menos mulher. Ser dona de si é, acima de tudo, ter o direito de ser você mesma.
Shiva despertou e eles se casaram, apesar do preconceito da família dela com o estilo de vida dele. O conflito culminou em uma festa para a qual Sáti não foi convidada. Ao decidir ir assim mesmo, foi recebida com desdém e humilhada por sua simplicidade. Ferida em sua dignidade, Sáti convocou sua força destrutiva e se incinerou no fogo da própria verdade.
Shiva, ao sentir a perda através de sua intuição, foi tomado por uma fúria divina. Ele criou um exército de guerreiros para destruir a festa da
ignorância (Avidhya). Ali estava Shakti se manifestando para reestabelecer o equilíbrio do cosmo: a delicadeza que cuida é a mesma força que, quando injustiçada, transforma o mundo.
Saímos do mito e aterrissamos em 2013, na Rua Vergueiro, em São Paulo.
Eu pilotava minha scooter quando vi uma mulher desorientada, com o rosto inchado e ferido. Ela recolhia pertences do chão enquanto um motorista tentava fugir. "Moça, me ajude! Ele bateu em mim e quer ir embora", implorou.
Minha presença inibiu a fuga. O sujeito, frio, dizia que ela era "louca". No posto ao lado, funcionários riam da situação. Diante daquela desumanidade, não me calei. Sem celular à mão e enfrentando a mentira do motorista e o escárnio dos que assistiam, consegui parar uma viatura que passava.
O policial, agindo com a retidão necessária, trouxe ordem ao caos. Ali descobrimos a dor de Teresa Cristina: ela acabara de enterrar o marido e estava sozinha, desamparada. O acidente fora apenas a última gota em seu coração dilacerado. Ela precisou de uma Shakti (a minha intervenção) e de um Shiva (a autoridade justa) para não ser esmagada pela indiferença.
Não escrevo sobre tragédias, mas sobre a possibilidade do despertar.
Fica aqui, então, não um conselho ou mais uma regra — já que somos cercadas por tantos imperativos — mas um convite: o de não se sufocar. Que haja espaço para que sua essência não se perca sob o peso do julgamento ou do silêncio alheio. Que você se sinta livre para se expressar como a lua, respeitando cada uma de suas fases, sem a obrigação de ser cheia o tempo todo.
O dia da mulher talvez seja apenas um lembrete de que nossa força — sensível, consciente e profundamente humana — é o que, gentilmente, move a dança da vida.
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