Quem comanda o tempo?
A palavra tempo, no português, define-se como a duração calculável das coisas e a sucessão limitada de momentos em oposição à eternidade. Mas a forma como habitamos esses intervalos revela muito sobre nossa saúde mental e nossa verdadeira liberdade. Na tradição do Yoga, o tempo cronológico — o relógio que nos dita — é chamado de Kala, mas o sofrimento surge quando nos perdemos nele e esquecemos nossa natureza essencial, que é atemporal.
Muitas vezes, somos engolidos por uma ânsia de realizar zilhões de tarefas sem questionar o propósito desse esforço. Vivemos o que Christophe Dejours identifica como a centralidade do trabalho, onde a atividade profissional deixa de ser apenas um meio de subsistência para se tornar o eixo único da identidade. Sob a ótica filosófica, caímos no estado de Rajas: uma agitação frenética que nos faz acreditar que nossa existência só tem valor se estivermos produzindo. É a manifestação de Avidya, a ignorância sobre quem realmente somos além dos nossos cargos.
Minha experiência pessoal ilustra esse abismo. Diante do questionamento de um médico sobre a divisão ideal entre oito horas de descanso, oito de trabalho e oito de lazer, minha única resposta era a dedicação total à produção. Eu levava planilhas para casa, ignorando que o lazer é, essencialmente, o exercício da livre capacidade criadora — um estado de Ananda (bem-aventurança) que surge quando nos desvencilhamos das obrigações. Ao negligenciar esse espaço, eu confirmava a tese de Dejours de que o trabalho nunca é neutro: quando ele não é mediador de prazer, torna-se um caminho para o sofrimento patogênico.
O alerta físico veio de forma drástica, com a perda de cabelos e o esquecimento de necessidades básicas, como beber água ou ir ao banheiro. Eu estava violando o princípio de Ahimsa (não-violência) contra mim mesma. Mergulhada em estratégias de defesa para suportar uma carga que já havia me despersonalizado, minha mente havia se tornado uma sucessão de Vrittis — flutuações e turbulências que me impediam de enxergar a realidade além do cansaço.
O Dr. Walker me presenteou com uma provocação inesquecível sobre qual seria o verdadeiro empreendimento da minha vida para justificar tal sacrifício, incentivando o resgate dos ciclos de amizade, da liberdade e da luz do dia. Essa mudança de comportamento exigiu o que o Yoga chama de Viveka: o discernimento constante entre o que é urgente e o que é essencial. A reconquista da autonomia frente à organização do trabalho exigiu Svadhyaya, ou autopesquisa. A auto-observação me trouxe a clareza de que a incapacidade de dizer "não" era o que me mantinha acorrentada a pendências infinitas, gerando um ciclo burocrático de ansiedade.
Aprendi que a mente humana precisa de pausas, pois a fixação em uma tarefa por longos períodos sem respiro é um flagelo contra a própria natureza. Hoje, ao praticar a assertividade e a sinceridade, compreendo que comandar o tempo significa, na verdade, praticar o Chitta Vritti Nirodha — o recolhimento das flutuações da mente para retomar o controle das rédeas da própria vontade.
Embora priorizar a qualidade de vida possa, em alguns momentos, confrontar as expectativas corporativas, é essa postura que impede que o emprego comprometa a liberdade. Gerenciar o tempo, portanto, não é uma questão de cronômetro, mas de autodisciplina e de entender que o trabalho deve ser praticado como Karma Yoga: uma ação feita com entrega e excelência, mas que não nos escraviza nem nos faz esquecer de nós mesmos dentro da realidade consensual do relógio. Comandar o tempo é, acima de tudo, a liberdade de estar presente.

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