"Saudações! Enfim a primavera, embora as fronteiras entre as estações pareçam cada vez mais tênues. Recentemente, um diálogo sobre as linhas do Yôga me levou a uma profunda autodescoberta. É comum ouvirmos que existem cinco caminhos; embora funcionem em conjunto, todos temos nossas facilidades e abismos. O meu é o Bhakti.
Sentada à mesa com um monge, ouvi que meu Yôga era teórico demais. 'A devoção está no comer com felicidade', disse ele. Aquilo me atingiu. Eu comia por subsistência, de forma autômata, distante do entusiasmo de quem realmente experimenta a vida. Recordando as punições que sofri na infância para comer, entendi por que, mesmo frequentando ótimos lugares, nunca sei indicar um prato: eu não estava lá. Eu me tornei uma propagadora da 'experiência' que não conseguia sentir o sabor do próprio almoço."
J"Justo eu, que tanto propago o 'Sujeito da Experiência', vi-me vazia de vivência à mesa. Embora frequentasse bons restaurantes, era incapaz de indicar um prato. O distanciamento vinha da infância: as punições pelo desinteresse em comer criaram um abismo entre mim e a nutrição. Qual seria a 'falta' que me movia?
Dias após aquele almoço com o monge, mergulhei em reflexões através do cinema. Assisti a Erin Brockovich. Julia Roberts, que geralmente considero uma atriz que interpreta a si mesma, está visceral. Sua personagem é humana, demasiadamente humana: vulgar, talentosa e falha. O que mais me fascinou, porém, não foi a trama jurídica, mas sua relação com a comida. Julia me convence ao comer; ela me instiga. Uma cena específica me despertou um desejo genuíno por um simples hambúrguer.
O florescer continuou em Álbum de Família. Lá estava ela novamente, enfrentando a 'mãe malvada' vivida por Meryl Streep. Entre traumas e conflitos familiares, a atuação de Julia me deu pistas sobre meus próprios desertos emocionais que culminavam na apatia alimentar. Freud teria um orgasmo no túmulo!
Decidi, então, confrontar o cerne da questão. Eu precisava de uma experiência sensorial completa: tocar o alimento, sentir as mãos e me lambuzar, resgatando a memória do toque primordial no seio materno. O destino não poderia ser outro: a Prime Dog na Rua Vergueiro. Sob um vento cortante, coloquei-me, finalmente, à prova."
"Ao chegar, estacionei minha scooter em frente ao Prime Dog, mas algo desviou meu olhar para o pequeno estabelecimento ao lado. Eu já o vira aberto inúmeras vezes, sem entusiasmo, mas o banner enigmático — 'Temos comida vegetariana' — sempre me lançava um convite silencioso.
Em segundos, mudei o roteiro da experiência. Senti que seria ali, naquele espaço modesto, que eu enfrentaria o hiato entre mim e o alimento. Pedi um sanduíche de falafel; nada melhor para evocar as memórias da minha infância na Vila Mariana.
No balcão, deparei-me com uma senhora libanesa. Tinha o semblante prestativo e o vigor de uma matrona.
— 'O qui que vai hoje?' — perguntou, com a hospitalidade típica.
Confirmei o falafel e decidi comer ali mesmo. Nada poderia interferir no momento sublime de provar algo que acabara de sair do fogo.
Enquanto aguardava no Al Hoda, mergulhei em reflexões. Aquela senhora era o símbolo maternal por excelência: uma mãe em seu laboratório alquímico, surpreendida por um filho faminto. Lembrei-me das cozinhas da infância, dos roubos furtivos de comida e das advertências maternas: 'Não coma a batata agora, ou vai secar o óleo'. Ali, eu usava aquela 'mãe simbólica' para realizar meu próprio rito de passagem. Observei seus rituais e entendi: há coisas que não se explicam, apenas se vivem.
Minutos depois, o banquete estava à minha frente. Adicionei um molho de pimenta onde o frescor do tomate contrastava com o picante que despertava a alma — e fazia até o nariz escorrer. Senti o calor das primeiras mordidas; meu fogo digestivo, enfim, ardia. O tahine fresco trazia o sabor marcante do gergelim, abraçando a salada e o falafel de fava. Eu me lambucei, caro leitor. Com direito a lamber os dedos e perder a compostura.
Ao terminar, envolta em um relaxamento muscular e uma satisfação real, sorri. A senhora, percebendo minha entrega, perguntou com seu sotaque suave:
— 'Estais satisfeita? Desejas algo mais? Gostou?'"
"Respondi com um sorriso pleno:
— Sim, eu adorei. Foi o melhor falafel que já comi na vida. Certamente voltarei.
Para levar, escolhi um doce de pistache — o meu favorito — feito naquele mesmo dia. Eu queria que aquela experiência se estendesse; queria explorar novos sabores e garantir que a 'tal devoção' no ato de comer me acompanhasse nos dias seguintes. E assim tem sido, caros leitores. A cada dia, a vida me revela um sabor diferente. Para senti-lo, só preciso estar presente.
Na despedida, a senhora me acolheu com votos generosos:
— 'Seja bem-vinda! Venha sempre! Sempre serás bem-vinda!'
Antes de partir, minha curiosidade infantil lançou uma última pergunta:
— O que significa Al Hoda?
Ela sorriu e respondeu:
— 'É o meu nome. Significa: Siga seu caminho.'
Naquele exato instante, senti uma reação química percorrer meu corpo. Foi como se células se recombinassem e o que estava bloqueado finalmente fluísse. Senti o calor e a energia correndo nas veias. Curiosamente, depois desse dia, nunca mais sofri com o frio excessivo; sinto a temperatura, mas sem aquela sensação de perda de vida.
Seguir meu caminho significa assumir meu lado adulto, com a certeza de que posso e mereço, sem vitimismo. Naquele balcão, reconheci minha mãe real — aquela que me deu tudo o que foi necessário e tudo o que pôde. Foi o momento da morte da 'mãe ideal'. Desisti de procurar o pai na figura da mãe. Entendi, caro leitor, que é impossível para uma mulher cumprir esse duplo papel, por mais vanguardista que minha mãe tenha sido ao me criar sozinha.
Cada personagem tem seu papel: mãe é mãe, pai é pai. Quando existem buracos na história, o melhor a fazer é viver com eles sem perder a integridade. Desisti de cobrar o que ela não podia oferecer: segurança, proteção, incentivo. Ao aceitar a falta, encontrei a minha própria nutrição."
Recordei-me, então, da outra face da conversa com o monge: a de que as mães são exaustivamente cobradas, quase perdendo o direito de serem humanas. Sob o peso da culpa, tentam poupar os filhos da dor ou viver por eles, projetando, por vezes, suas próprias frustrações. O monge narrou que, em sua última visita à África, sua mãe, já nonagenária e fragilizada, ainda insistia em lavar suas roupas. O zelo, se não mediado, torna-se um fardo para ambos.
Toda mãe tem limites. Ela é o elo com a Mãe Cósmica, mas precisa ser lembrada, com amor, de sua humanidade. Cabe ao filho adulto ocupar seu lugar, ressignificando a relação e honrando os pais pelo dom da vida — ainda que o processo educativo tenha sido entremeado por dores.
Se, como propõem as filosofias orientais, somos responsáveis pelo que nos acontece, a prática torna-se o solo sagrado da transformação. Posso transmutar a experiência e atribuir um valor construtivo ao meu Ser, sem culpas. É o ponto onde vítima e algoz deixam de existir. Tornar-se responsável é reconhecer limites e 'deslimites'; é aceitar que, às vezes, teremos recursos e, em outras, a única saída será tatear bifurcações até que novas ferramentas surjam para lidarmos com nossas angústias.
Assim, sentar-se à mesa ganhou um novo significado — e, confesso, alguns quilos a mais.
Talvez eu tenha finalmente compreendido o real sentido de Bhakti (devoção). Um prazer que transcende a química cerebral e reside no êxtase de sentir o Universo impresso em um simples sanduíche. Pois um objeto será sempre o que o valor de nossa presença determinar.
Finalizo, caros leitores, com o pensamento que me guiou nesta jornada:
'O ser humano experimenta a si mesmo, seus pensamentos e sensações como algo separado do restante — uma ilusão de ótica de sua consciência que nos aprisiona a desejos individuais. Nossa tarefa deve ser libertar-nos dessa prisão, alargando nosso ciclo de compaixão para abraçar todos os seres vivos e a natureza inteira.'
Fico a me perguntar: quais experiências profundas permitiram a Einstein produzir tamanha clareza?"

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