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Aos alunos com carinho


Aos alunos com carinho


Saudações primaveris, Queridos Leitores.

Após uma década de travessia no Yoga, rompo o silêncio para compartilhar a colheita de dez anos de solo e alma. Este texto nasce de duas intersecções: um trocadilho que o título carrega e uma reflexão sobre a utopia no autoconhecimento. Se buscam aqui o misticismo que entorpece, sinto desapontar; minha oferta hoje é o real.

No alvorecer da minha carreira, eu era habitada por uma crença messiânica. Imaginava que o Yoga era a chave absoluta, capaz de abrir todas as portas da cura, da paz e da resolução de conflitos. Eu via no "Outro" alguém que precisava ser salvo por mim, e nessa missão, vesti o arquétipo da salvadora. Contudo, ao tentar carregar o mundo nas costas, esqueci-me de que o mundo tem o seu próprio peso.

O tempo, senhor da verdade, trouxe a sobrecarga. A energia escoou, os projetos paralisaram e a consciência nublou. Vi-me secundária em minha própria vida, culminando em um colapso necessário. Foi ali que a Psicanálise me estendeu a mão, não para me dar respostas, mas para que eu pudesse "escutar-me falar". Entendi que o Yoga não era tudo e que eu precisava de outro suporte para sustentar a minha humanidade.

A Lição do Karma Yoga: Agir sem se Apropriar

Nesse processo, reinterpretei o Karma Yoga. Compreendi que a verdadeira ação não é aquela que se sobrecarrega com o resultado ou com a vida do aluno. O excesso de zelo era, no fundo, um apego. Ao tentar "curar" o outro, eu roubava dele a oportunidade de enfrentar seu próprio destino.

Hoje, entendo que minha ação deve ser pura (Nishkama Karma): ofereço a técnica e a presença, mas os frutos pertencem a quem pratica. Se o aluno abusa do corpo, se foge da reflexão ou se busca o asana apenas como performance estética, essa é a jornada dele. Eu não sou 24 horas professora; sou uma humana que, em um recorte de tempo e espaço, convoca o outro a se ver.

O Guru e o Kriya Yoga de Patanjali

Muitos buscam no professor a figura do Guru — aquele que dissipa as trevas. Mas o Yoga de Patanjali nos ensina o Kriya Yoga: Tapas (disciplina), Svadhyaya (autoestudo) e Ishvara Pranidhana (entrega).

Tapas: O fogo que transforma. Não há milagre no tapete; o que emagrece é a responsabilidade com o alimento; o que acalma é a disciplina da fala e do pensamento.

Svadhyaya: É por isso que, quando me demandam respostas, devolvo silêncio ou perguntas. O mestre não é quem dá o peixe, mas quem sustenta o espelho. A autonomia nasce quando o aluno para de buscar fora o que só pode ser gestado dentro.

Viveka: O discernimento. É preciso distinguir entre a "performance" e a "atitude". Quem se apega à estética do corpo não sai da margem de si mesmo.

A Jornada é Solitária

"Portanto, aos que ainda esperam que eu desenrole o tapete vermelho da iluminação instantânea: sinto desapontar. Não trago seu amor de volta em sete dias, não conserto o caráter do seu filho adulto e, definitivamente, não tenho uma linha direta com o SAC do Universo para contestar seu 'karma' de estimação.

Meu papel como professora de Yoga é, para o desconforto de alguns, convocar o Svadhyaya. E observar-se sem filtros, todos sabemos, exige uma coragem que o intelecto não alcança. Atualmente, quando me pedem a fórmula mágica da paz eterna, ofereço meu melhor silêncio — que é onde a verdadeira entrega, o Ishvara Pranidhana, começa a acontecer. O Yoga convoca o humano à sua própria verdade; a solução dos traumas, deixo para a clínica.

Descreio daquela positividade tóxica que sorri enquanto o barco afunda. Se você negligenciou o corpo ou se perdeu em impulsos nas vitrines das redes sociais, não me venha com mantras: o que resolve isso é a disciplina do Karma Yoga aplicada à vida real. O milagre não acontece na performance para ser vista; ele ocorre quando você para de lutar contra o real e assume a responsabilidade pelo seu próprio 'umbigo espiritual'.

Aos alunos que conquistaram sua autonomia: meu mais sincero respeito. Aos que ainda buscam em mim o milagre que deveriam gestar em si: sinto dizer, mas a jornada é solitária, o GPS é interno e eu... bem, eu também tenho a minha própria vida para viver.

Sigamos, cada um em seu próprio milagre e em sua própria entrega.

"Aos alunos, com carinho, sigamos."

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