Praticante de yoga fora do tapete?
Querido leitor!
Querido leitor, Hari Om!
Alguma vez você já silenciou o ruído das técnicas para perguntar ao próprio abismo: por que, afinal, decidi caminhar pela via do Yoga? O que resta dessa prática quando o tapete é dobrado e o incenso se apaga? O que é ser um praticante quando o corpo não está em asana, mas em colisão com o mundo?
Pergunto-me se essa "espiritualidade" que tanto buscamos não se tornou um esconderijo. Afinal, és um praticante sincero e austero ou apenas um colecionador de rituais que servem para te manter, em segurança, na margem de si mesmo? Eu escrevi praticante. Pois há quem use o sagrado apenas para decorar a superfície, evitando o mergulho nas águas turvas da própria sombra.
Fora do tapete, a ética deixa de ser uma tábua de mandamentos e torna-se a própria textura do seu caminhar. Como você lida com o Outro — esse espelho incômodo que é outra cultura, outra dor, outra sociedade? Você conhece os Yamas e Niyamas como códigos de vida, ou apenas como palavras sânscritas distantes? Eles não são obrigações morais; são a estética da nossa integridade. É a não-violência (Ahimsa) que nasce da clareza, e não do medo; é a verdade (Satya) que despoja as máscaras e nos deixa nus diante do Real.
E o que seria esse Real? A vida crua, como Nelson Rodrigues a desenhava? Ou a vida que você insiste em moldar nos seus desejos? O que sobra da "vida como ela é" quando retiramos as lentes das nossas falsas crenças?
Sente-se um Karma Yogui, um ser atuante cuja presença é contribuição? Ou és apenas um espectador da própria existência?
Admito, meu caro leitor, que estas linhas carregam certa peçonha. Vou poupá-lo de mais veneno por agora. Eu poderia escrever volumes tentando decifrar meus próprios labirintos, mas a filosofia do Yoga não se escreve, se vive.
Antes, eu acreditava que fora do tapete eu cultivaria uma paz imperturbável e um equilíbrio estático. Hoje, sinto que a paz também habita o desencontro e que o equilíbrio é essa busca infinita no fio da navalha. Hoje, entendo que minha prática é um ato de subversão: quero salvar as pessoas das falsas crenças, mesmo sabendo que não sou salvadora de ninguém. Contento-me com a provocação. Contento-me em expor minha humanidade trêmula para que, na minha vulnerabilidade, você possa reconhecer a sua.
Busco o encontro, saboreando antecipadamente os desencontros que virão. Pois, no fim, o que é ser um praticante de yoga fora do tapete senão essa coragem de abraçar a vida em toda a sua impermanência?

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