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Egoísmo e abnegação



Hari om!

Segundo Satyananda, egoísmo e a abnegação são mutuamente exclusivos, onde um há, o outro não pode existir.
Se uma pessoa é egoísta em uma ação ou pensamento, logo ela não pode ser altruísta. O altruísmo leva ao despertar do potencial humano, porque é uma necessidade, enquanto que o egoísmo impede e cria obstáculos. Por outro lado, será que ações ou pensamentos egoístas isolados, determinam o altruísmo de alguém?
O egoísmo não pode ser exterminado instantaneamente, depende do sadhana ou abhyasa que é um termo do sânscrito, em devanagari: (साधनम्) que significa prática espiritual, é a prática diária do Yoga ou do tantrismo que leva o praticante à meta do Yoga que é moksha (liberação). Consideremos que a prática não é diária, pois ela se dá a todo instante, e talvez dizer que ela é diária pode reduzi-la ao que acontece no tapete. O extermínio do egoísmo se dá através da meditação em purusa (consciência testemunha), neste caso, hábil para lidar com "um obscuro conhecimento de ser um eu". Seria realmente possível o extermínio do egoísmo?
Satyananda faz analogia com a ciência tântrica das nadis (fluxos de energia). As palavras em sânscrito "ida" , nesse contexto, dá uma ideia de introversão, a palavra "pingala", um antônimo. São polaridades capazes de colorir as ações de uma pessoa, por exemplo um excesso de concentração em "ida", pode levar a um ensimesmamento, o que drena toda a energia vital, pois ela é absorvida por experiências psíquicas. O excesso em "pingala", reduz o nível de consciência (interioridade), a responsabilidade sobre o si mesmo, porque toda a energia é voltada para os objetos externos. Esses extremos são umas das causas do sofrimento de muitas pessoas. Sair dessas limitações, quebrar paradigmas, requer um progresso gradual, tapas (esforços sobre o si mesmo).O purusa (o si), sendo ele um princípio transcendental e autônomo,"é ele que ele conhece", a contemplação de seu próprio modo de ser. Purusa é um paradoxo difícil de resolver no yoga e no samkhya, porque se posiciona na ordem do impossível, impossível de conhece-lo, mas não impossível de se relacionar. É através do produto de prakrti (substância primordial), que essa relação acontece. Talvez um assunto para aprofundar em outro texto, por hora nos dá um norte sobre os possíveis significados de consciência, da relação com o si mesmo.
Satyananda também ressalta a importância do conhecimento, e exemplifica ao analisar uma frase de Cristo, a frase diz sobre o "olhar para dentro", que seria sinônimo de aventura psíquica, se interpretada literalmente, no entanto, ampliou a interpretação por associar a outras máximas de Cristo como: amar ao próximo, o inimigo e etc. Esse olhar para dentro, somente se constituiria, se houvesse a inclusão do outro. Talvez Satyananda esteja nos remetendo aos yamas (contenções) que podem diminuir um tanto de tensões entre o si e o outro ou também gerar mais tensões.
Ainda sobre o conhecimento, Satyanada criticou o budista Mahayana, segundo ele, seria melhor para essa prática, se não houvesse conversão na busca pelo nirvana, porque isso torna a ação egoísta. Nessa prática, o budista não deve ficar satisfeito até que se obtenha a liberação de todos os outros seres. Esta é uma tarefa impossível, destinada ao fracasso, se tomada literalmente também. Mais uma vez, reforça sobre a relação com o outro.
O conhecimento errôneo pode ser um mergulho em avydia (ignorância), por isso a reflexão sobre os significados de viparyaya são importantes: Viparyaya ( sânscrito : विपर्यय) -invertido, perverso; mudança (de propósito, vestido e afins); ausência ou inexistência; perda de consciência; destruição completa ou aniquilação; troca ou permuta; erro, transgressão, mal-entendido; calamidade, infelicidade ou destino adverso; hostilidade, perversidade, oposição ou destruição do mundo. O conhecimento errôneo é viparyaya ; não é suportado por nada, por exemplo, uma miragem. Viparyaya é um padrão de pensamento ou modificação da mente; não é uma fantasia que é a criação de uma mente maluca. O pensamento humano é em grande parte baseado em viparyaya-vritti, responsável por grande parte da miséria na vida humana.
A importância do conhecimento, do auto estudo junto com tantas outras ideias aqui apresentadas são reforçadas de forma imperativa por
Satyananda:
-Você precisa desenvolver a consciência interior e relaciona-la com o mundo exterior. É preciso também mudar sua atitude para com outras pessoas, traçar linhas harmoniosas que se opõe a destruição de si e do Outro. A máxima: "faça aos outros o que gostaria que fizessem a você", esta num lugar sem estímulos egoístas.
A conclusão é que para se chegar a abnegação é necessário altruísmo. O que não excluí nosso pensamento crítico e a importância desse caminho espiritual que é tão subjetivo. Ainda que receitas sejam aparentemente interessantes e desejáveis, que sejam formuladas de forma mais palatável como essas de Satyananda, ainda que cultivemos algo especial em relação algum mestre que nos aponte receitas, ficamos ainda sujeitos as mazelas humanas, a trocar um paradigma por outro equivocado, uma fé cega por outra mais cega ainda. A linha que separa um conhecimento errôneo, do não errôneo é tênue.
Concluindo, de fato é possível exterminar o egoísmo ou conseguimos debastar um tanto? Um tanto que nos possibilite sairmos das margens de si mesmo, que possa mais ainda, incluir o outro?
Refletimos sobre?
Esse texto foi baseado num texto de título homônimo, cuja a imagem acompanha o texto.
Pretenciosamente gostaria que ele provocasse muitas coisas, até mesmo incômodos, contradições, equívocos, tudo o mais que nos direcione para diálogos elevados, que possamos dialogar para além do tapete.

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