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Relaxar é Preciso? O resgate do milagre entre os três oitos.

Relaxar é Preciso? O resgate do milagre entre os três oitos.  Acaso permites que o teu ser desabe, exausto e mudo, sob o peso desse tempo que não cessa? Ou vives a mendigar ao calendário um fôlego que nunca chega, aprisionando a paz em domingos pálidos e férias que são apenas breves adeus? Diz-me, enquanto a sombra se estira sobre os teus dias: o que resta de ti quando o ruído finalmente silencia, ou seria o teu relaxar apenas o cansaço desolador de quem já não sabe como habitar o próprio peito? O relaxamento não é um destino, mas o eco de um esforço que se dissipa. É o silêncio que sucede o grito da fibra muscular, a calmaria que se instala quando o punho, finalmente, esquece como é ser pedra. No cotidiano, contudo, a vida não se traduz em engrenagens. Não somos máquinas de apertar e soltar. Somos, antes, como a superfície de um lago: a mente é o vento que encrespa as águas, e o corpo é o leito que sustenta o peso de cada onda. Podem as águas descansar se o vento ainda sopra com...

Eu sinto medo?

Eu sinto medo? "Houve um tempo em que as palavras 'você está com medo' ecoavam em mim como um ruído incômodo, algo que eu tentava silenciar a qualquer custo. Minha resposta era um escudo de ferro: 'Sou corajosa, o medo não me habita'. Eu via a coragem e o medo como água e óleo, dois estranhos que jamais poderiam dividir o mesmo frasco. Contudo, a vida tem seus próprios métodos de ensino. Com o auxílio do Yoga, percebi que o medo não é um invasor, mas um hóspede silencioso que já vem no 'pacote' da nossa humanidade. Ele não é uma escolha; é uma batida involuntária do coração. Entendi que a verdadeira coragem não é a ausência desse frio na espinha, mas a habilidade de olhar o monstro nos olhos e convidá-lo para um café. É parar de travar uma guerra santa contra o que sentimos para, enfim, abraçar uma integridade sem mordaças. Afinal, fomos ensinados a enterrar nossos fantasmas, mas eu prefiro aprender a dançar com eles." "Reconhecer-se como portado...

O Elegante

O Elegante Dizia o mestre do corte e do deboche que a elegância não se costura: ela é um erro geográfico do destino, nasce com o indivíduo como um brilho incurável no olhar. Elegância é a geometria do espírito, uma dança invisível entre o porte e a pausa, muito antes de ser o rótulo de uma grife ou o tilintar correto dos talheres de prata. Ser elegante é dominar o dom da neutralidade. Mas cuidado: não confundamos contenção com covardia. A neutralidade do elegante é estética e emocional; é a capacidade divina de não poluir o próximo com os próprios detritos, de não transformar o jantar alheio em um confessionário de angústias ou um palanque de arrogância. Ele é neutro porque é seguro, não porque é nulo. A omissão é o refúgio dos mornos; a elegância é o escudo dos fortes. O elegante sabe dizer "não" e sabe discordar, mas o faz com lâmina de seda, sem precisar de holofotes ou gritaria. No asfalto hostil de São Paulo, a elegância é o sorriso que desarma o caos. É a pontualidade s...

Qualidade de Vida?

Qualidade de Vida? "Ultimamente, a 'Qualidade de Vida' tornou-se uma roupa de grife usada para vestir o vazio. O termo esgarçou-se, transformando-se em um cadáver maquiado pelo marketing do bem-estar. Basta folhear uma revista para encontrar essa miragem lucrativa: vendem-nos a ideia de que a plenitude cabe em um pote de iogurte ou que a felicidade é um acessório de vitrine. É uma armadilha de seda, pois tenta convencer o ser humano de que a vida se resolve no caixa. Mas o que resta quando removemos a embalagem? Antes de prosseguir, deixo-lhe o questionamento: Você possui qualidade de vida ou apenas uma vida com verniz de qualidade? O assunto é um labirinto de espelhos. É difícil encontrar o fio de Ariadne para começar este texto." "Sobreviver exige o básico: o teto, o pão, o pano. Mas na engrenagem do consumo, fomos ensinados a passar fome de coisas inúteis. Para que a vida tenha qualidade, a sociedade precisa de ética — não como um código frio, mas como uma mo...

Consumo?

Consumo? Afinal, você leva para casa o que realmente precisa? Somos livres pensadores, embora muitas vezes esqueçamos disso para atender aos apelos de uma publicidade que, de forma pouco ética, promove produtos tóxicos. Cuidar da Terra não é apenas uma missão de povos originários; é uma obrigação de todos para manter o planeta habitável. Até quando seremos escravos das gôndolas, medindo nossas necessidades por réguas alheias? É preciso analisar o meio ambiente como um todo, compreendendo o mundo globalizado. Muitas vezes, não temos ideia de que, para certos produtos existirem, são necessários recursos naturais e extrações minerais custeadas por terceiros. Celulares que parecem "baratos" ou saem "de graça" em contratos de operadoras escondem um custo invisível: pode ser a mão de obra análoga à escravidão em outro continente ou vilarejos que pagaram com sua biodiversidade pela extração da matéria-prima. Quem realmente custeia o descarte? Qual região do globo recebe o ...

Um panorama sobre os usuários de transporte coletivo

Sou passageira de percursos marcados pelo asfalto e pelo cansaço. Entre o coração da Brigadeiro Luís Antônio e o destino que oscila entre o Itaim e o Morumbi, traço minha rotina sob o signo da linha Terminal Capelinha. Ali, o transporte se apresenta sob um design esquisito, uma arquitetura do equívoco, onde a estética e a lógica parecem ter brigado no papel. O ônibus nos seduz com degraus baixos, um convite suave ao embarque, para logo depois nos trair com escadas internas que brotam antes da catraca, degraus que nos empurram ao fundo do veículo, onde a porta de desembarque se esconde, solitária. As poltronas são sentenças de imobilidade: estreitas, com encostos que negam a espinha e braços fixos que aprisionam quem escolhe a janela. Dizem que o desenho atende à inclusão, mas na urgência da demanda, o que se vê é a exclusão do conforto. O trajeto é um combate. O solo da Brigadeiro, ferido por buracos, soma-se ao humor de motoristas que conduzem não pessoas, mas fardos. São frenagens qu...

Cuidar de Si mesmo

Cuidar de Si mesmo Às vezes, a vida nos atropela sem que percebamos a placa do caminhão. No silêncio de um retiro de desintoxicação ayurvédica no interior de São Paulo, entre práticas de Yoga e o amparo de terapeutas dedicados, fui confrontada com a minha própria negligência. O texto a seguir é o registro desse despertar — uma investigação sobre onde termina o nosso auxílio ao outro e onde deve, obrigatoriamente, começar o zelo por nós mesmos. Cuidado significa atenção, zelo ou cautela. Pergunto-me, então, neste final de outubro que agora se despede: quanto tenho cuidado de mim e quanto tenho me negligenciado? Foi nesta fase mais adulta que me dei conta de que cuidei muito pouco de mim nestes últimos tempos, e embora sinta que vou maturando, reconheço que ainda há muito o que desbravar nesse solo interno. O meu traço de personalidade, somado à profissão, fez de mim uma ouvinte paciente, mas aprendi que cada um possui um limite intransponível. No processo de ajudar o outro, entendo agor...