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A Tocha e o Aventureiro

A Tocha e o Aventureiro




E naquela noite, em meio a caçadores e caçadoras; os cheiros, a sensualidade, as risadas, as piadas indecentes, a bebida, o cigarro. Bem-vindo à esbórnia — que nada mais é que o Madhu-vana, a floresta dos sentidos onde o tempo se dissolve.

No meio de tudo isso, lá está ela "a Tocha", personificação de Rati, a beleza que incendeia sem precisar de pavio. E de outro lado lá está ele "o Aventureiro", portando o arco invisível de Kamadeva, o deus que não fere, mas desperta.
O aventureiro toma coragem, e, uma conversa, um copo, uma outra bebida, risadas, brigas, desentendimentos, filosofias de vida, minimalismo. Ele tenta cercar o infinito com palavras. Libertarismo, desejos e teias. Amor, raiva, ódio, inveja — os componentes do Samsara fervendo em um copo de vidro.

No meio de tudo isto a Tocha acende aquele desejo, o contato, a pele, o toque nas costelas, as mãos dançantes. É o despertar de Agni, o fogo sagrado que exige sacrifício. Os órgãos quentes e o fogo ardente revelam que, naquela dança, os corpos são apenas altares para o êxtase de Kama.

O aventureiro, seduzido pela Tocha e embriagado pela própria audácia, tenta sequestrá-la. Ele comete o erro de Madana: tenta possuir a labareda, esquecendo que o fogo não tem dono. Ele quase não consegue largar daquele ardente desejo que só o fogo é capaz de prover à alma sedenta.

Mas o sequestro se dá por falho quando: as caçadoras e caçadores, agindo como o Terceiro Olho de Shiva coletivo, envoltos de puro veneno da bebida, dos desejos medíocres e dos sentimentos sombrios... apagam a Tocha. O mundo real não suporta o brilho do que é divino e, com o sopro da inveja, incineram a forma física do desejo.
E depois de tanto desentendimento, de tanto fogo tornado fumaça, eis que sobrou apenas um gosto doce na boca — o néctar de Amrita que só resta aos que ousaram arder. É o gosto daquilo que poderia ter sido uma grande labareda, mas que se tornou Ananga, o desejo sem corpo, o amor que habita o vazio.

E por onde estará o aventureiro que quase carregou a Tocha? Ele agora caminha invisível, pois quem foi tocado pelas cinzas de Kamadeva nunca mais pertence inteiramente à terra. Ele vaga pela noite, não mais buscando o fogo, mas sendo a própria brasa que espera o próximo vento.






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