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Surya Namaskar - Saudação ao Sol

Surya Namaskar - Saudação ao Sol



Parece estranho que, pleno século XXI, ainda busquemos algo chamado "Saudação ao Sol". Soa anacrônico, quase um desvio de rota em um mundo tão técnico. Mas essa prática de Hatha Yoga, com seus movimentos que dançam conforme o fôlego, revela que a conexão e a fluidez não são apenas exercícios; elas aumentam o calor do corpo para queimar o supérfluo, servindo como o aquecimento essencial para algumas modalidades de yoga.

Há quem diga que praticar 108 saudações ao sol em cada mudança de estação é o auge dessa técnica. Para mim, esse número — que espelha a distância cósmica entre nós, a lua e o astro rei — representa a importância de alinhar o ritmo interno ao relógio do universo. É o momento em que os 12 passos da sequência deixam de ser postura e viram oração silenciosa. Particularmente, gosto muito desse ritual, não apenas pelo calor físico, mas pelo ritmo que ele agrega à vida. É o meu sentir: a conexão com o Sol me traz para algo mais terreno, obrigando-me a estar presente e aterrada no próprio corpo enquanto o espírito se expande.

Nessa dança, a combinação da respiração e do movimento evoca a grande conexão divina. É como se cada asana fosse acompanhado por um mantra invisível, saudando desde o Sol que brilha até o eu cósmico dourado que habita em nós. De lá vem o fogo, aquilo que tudo queima e se transforma. Esse calor não se confunde com o de uma ginástica comum; o ritmo da respiração forte e alta, o Ujjayi, ativa a mente para dentro do meu próprio Ser, despertando o plexo solar onde guardamos nossa energia vital.

Lá pelas tantas, os pensamentos que tomavam a minha mente no início da prática me abandonam. As tensões dos equinócios e solstícios parecem se dissolver na repetição. Aí sim, posso sentir que meu corpo ganha tanta leveza que, no momento do relaxamento, saio quase flutuando, como se a gravidade tivesse perdido a força sobre mim.

Parece tudo muito místico, e é. Mas o que seria uma experiência mística senão este transe, este contato com o desconhecido que se dá por uma ação não calculada? Nem todo mundo que acende um incenso ou faz um mantra está dentro de uma experiência mística, mas quem se entrega à repetição exaustiva e devocional acaba batendo na porta do sagrado.

Você já contemplou o pôr do sol ao ponto de ser tomado por aquela graça sem explicação? Por mais que a ciência explique que a Terra gira e nos dê os dados astronômicos, quem pode explicar o mistério da existência da luz? Para os céticos, vale lembrar que a gratidão pela vida, pela energia e pelo calor se deve unicamente a ele. Então está aí a magnitude da saudação: reconhecer que este astro é o motivo de eu existir. Vale a pena saudar o Sol? Vale, porque porque ao saudá-lo, saúdo a própria possibilidade de estar viva e consciente sob a sua luz.

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