Quando me deparo com a palavra Santosha — esse contentamento que o Yoga nos ensina — sou invadida por questionamentos que ecoam no peito: Estarei eu, de fato, contente com a vida que levo? Terei eu conquistado tudo o que desejo? Mas as dúvidas se dissipam e a filosofia se faz carne quando recordo Kiko e Kika, um casal de alma solar, donos de um bistrô formidável em Aiuruoca, Minas Gerais. Ao olhá-los, o pensamento se aquieta em uma única certeza: "Isto é contentamento".
Ela, Cristina, é o encontro de Portugal com a herança africana. Dona de mãos de fada, é capaz de proezas que parecem rituais: colhe ervas sob o orvalho da madrugada, capturando a essência da terra para que a comida pulse um sabor especial — e quão especial ele é! Ele, Kiko, um francês com o sangue da Irlanda, possui um nome que a língua tropeça em pronunciar, mas uma simpatia que o coração entende de imediato. É um anfitrião nato, portador de uma leveza de espírito que desafia as gravidades do mundo.
Digo isto porque, ao encarar uma viagem de final de ano com amigos e opções restritas, o destino nos apresentou a este refúgio encantador. Estávamos mergulhados no dilema da Ceia de Ano Novo. Nossa localização era próxima a Aiuruoca, que naquele momento parecia não oferecer o que buscávamos, e o Vale do Matutu, lugar de melhores auspícios, estava distante e guardado por estradas incertas. Tínhamos o convite ao tédio na cidade ou o desafio dos atoleiros para chegar ao Vale — com o risco real de sequer alcançá-lo.
Pela graça do caminho, encontramos o meio-termo. Não houve a festinha sem brilho da cidade, nem o barro impeditivo das estradas. Durante o dia, enquanto trafegávamos rumo ao Vale, o destino nos entregou o que realmente precisávamos: o "Resto Kiko e Kika".
Mas a beleza não para na fachada. Encarei a pequena aventura de buscar informações sobre a ceia. Ao chegar, o bistrô estava em silêncio, fechado. Recuamos e encontramos uma entrada lateral; descemos do carro e batemos palmas. De repente, o pânico: em nossa direção surgiu uma criatura que mais parecia um cavalo, uma fera com uma bocarra capaz de engolir o medo inteiro. Duas latidas fizeram gelarem as profundezas da minha alma. Segui a velha sabedoria: não corra. Que pavor!
Por sorte, Kiko surgiu e acalmou sua "fera", Chirrac. O monstro logo se revelou um ser de pura doçura, um cão fofo que veio me pedir comida e selou nossa paz com um lambidão no rosto. Descobri ser uma linhagem africana, cães que guardam manadas de búfalos. Cristina, que além de cozinheira é veterinária, nos contou que aquela raça enfrenta até leões. E o medo voltava a sussurrar: "Aí, que medo!".
Mas, com medo ou sem ele, escolhemos o encontro. Na Ceia, fomos recebidos pelo manto do carinho e do aconchego. Comida de qualidade sublime, vinho generoso, o frio da Mantiqueira e a alegria transbordante entre amigos. Foi uma sucessão de surpresas; a proposta era um Ano Novo de Verdade, uma Confraternização em que todos os presentes se tornavam um só corpo, abraçando-se e conversando em um ambiente de luz auspiciosa.
Nas conversas, Kiko nos revelou sua jornada, um épico de onze anos em solo brasileiro. Quando chegaram a Minas, ele e sua amada Cristina possuíam o chão, mas não as paredes. O sufoco foi o primeiro mestre. Antes de o bistrô florescer, eles ralaram — e ralam até hoje. Kiko começou pescando e defumando trutas; hoje, seu laboratório de defumação é referência que atravessa as fronteiras para São Paulo e Rio.
No início, acampavam no próprio terreno. O banho era o rito da cachoeira sob o manto da noite, buscando a privacidade que a estrada não dava. Imagine a temperatura caindo na Serra da Mantiqueira, o alto inverno desafiando a pele... Como encarar o gelo da água naquelas noites? O segredo era o gole da pinguinha mineira, o calor do antes e do depois, seguido por um caldo quente e o sonho com a felicidade que vieram semear neste país.
Kiko descende de uma dinastia de defumadores, mas sua maior conquista foi a leveza no Ser. Nem por isso ele foi poupado das dualidades do mundo: enfrentou invejas, brigas e roubos — os obstáculos que a vida lança sobre todos nós. Mas nada disso lhe roubou o espírito.
Se você ainda não se sente contente com sua existência, escute as palavras dele:
"Apesar de toda penúria que vivi, apesar de estar pra lá dos 40 anos e de tudo o que passei, se tivesse de fazer de novo, faria tranquilamente. Sabe por quê? Porque sou muito grato pelo Brasil, por esta terra fértil, pelo mistério que ela carrega e pela oportunidade que tive e tenho. Tenho saúde e força para batalhar por aquilo que acredito; não importam os obstáculos, tudo na vida é uma experiência e sempre temos a chance de recomeçar."
Haverá maior Santosha que este?
Ter contentamento não é a aceitação passiva do que nos desagrada, mas o ato de acomodar no Ser as experiências vividas, destilando delas o que nos torna mais íntegros. A felicidade não é um comprimido ou um frasco de risadas ensaiadas; é a compreensão dessa dança cósmica do Universo. Quem entende o dualismo — a luz e a sombra, o frio da cachoeira e o calor do bistrô — e ainda assim sorri para o caminho, esse realmente habita o Contentamento.
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