O domingo vestia-se de mansidão, um desses dias em que a vida pede para ser saboreada em fogo baixo. Pela calçada da Paulista, o asfalto sob os pés era o palco de uma jornada ruidosa e doce, rumo ao refúgio das memórias de película na Locadora 2001. Minha mãe, cúmplice de passos e de tempo, caminhava ao meu lado sob um céu que parecia concordar com o nosso riso.
No semáforo, o mundo parou para nos entregar um espetáculo gratuito: a comédia humana em sua forma mais ébria e terna. De um lado, o equilíbrio precário de um homem que fizera do poste o seu único mastro em mar revolto de álcool; do outro, o zelo de uma mulher, moldada em feminilidade, que tentava ancorar aquele amor naufragado. Rimos. Um riso límpido, de quem contempla o absurdo sem malícia, apenas pelo prazer de ver que o amor, às vezes, tropeça e se levanta.
Mas a travessia, esse hiato entre o aqui e o acolá, guardava um espinho.
Ao cruzar o olhar com o desconhecido, a poesia do momento foi rasgada por um sotaque ríspido, uma sentença lançada ao vento três vezes como um mantra de amargura: "Bicha véa fêa!". Ali, no meio da faixa de pedestres, a doçura do domingo colidiu com o azedume de uma alma em guerra consigo mesma.
Percebi, então, que aquela mulher não me via; ela apenas enxergava o reflexo de suas próprias sombras. Sua mente, uma árvore de galhos retorcidos por julgamentos e dores guardadas, transformara meu riso em arma, minha alegria em ofensa. Ela sofria do mal de não saber habitar o silêncio sem preenchê-lo com veneno.
Fica a reflexão, flutuando entre os prédios da avenida: por que endurecemos o olhar até que o simples coçar de cabeça vire um enigma e o riso alheio se torne um espelho da nossa própria infelicidade? Que o autoexame seja a nossa bússola, para que possamos, enfim, permitir que uma risada seja apenas uma risada, e que o mundo não precise carregar o peso das nossas projeções.
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