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Pseudo verdade


Sempre que abro a página do Orkut, encontro aquele pequeno retângulo de texto, um espaço quase invisível que insiste: "Sorte de hoje: tarari tarará...". Durante muito tempo, cada vez que meus olhos percorriam aquelas letras, o que restava era o arrependimento. Eu via ali um conteúdo pobre, uma sombra de horóscopo barato, algo que subestimava a minha inteligência ao anunciar o óbvio: "cuidado ao passar pelo buraco", "atenção ao atravessar a rua". Eu sorria com sarcasmo, pensando que não precisava de lembretes sobre como não ser atropelada. Minha segurança era meu escudo.

Enfim, desisti. Por algum tempo, fechei os olhos para aquela baboseira e passei a usar a rede apenas para o que me parecia útil: buscar recados ou observar o movimento das comunidades que ainda frequento. Eu acreditava estar acima do ruído. Mas hoje, nem sei por que cargas d’água, resolvi desafiar meu próprio desprezo e li a tal sorte do dia. O impacto foi imediato: "Os tolos e os fanáticos estão sempre seguros de si, mas os sábios são cheios de dúvidas".

Senti-me, no mesmo instante, uma tola tragada pela própria arrogância. Eu estava ali, segura de mim, dona de pseudosverdades, armada até os dentes com certezas que não servem para nada diante da vastidão. Percebi que o universo não me pede nada. Ele não solicita minha opinião, não carece da minha crítica e, na verdade, é soberanamente indiferente à minha existência. Ele gira, pulsa e morre independentemente de eu estar certa ou errada. Se as galáxias não exigem que eu as compreenda, por que eu exigia que o mundo coubesse no meu julgamento?

Essa percepção trouxe uma liberdade estranha. Pra que julgar tanto? Por que não apenas ouvir, por que não apenas ler, sem o peso de ter que decidir o que é bom ou ruim? Para que tecer tantas verdades definitivas se o universo é um oceano de verdades relativas e flutuantes? Ao aceitar que sou irrelevante para a mecânica do cosmos, ganhei o direito de não precisar ter razão sobre tudo. Não há peso em ser ninguém.

Enfim, um ótimo começo de semana. Recebi um belo tapa na cara, dado pela mão invisível da minha própria ignorância. Mas, pela primeira vez, o rosto arde com a leveza de quem descobriu que a dúvida é o único solo firme onde a alma pode, enfim, descansar.

"Sou o silêncio de quem nada afirma diante de um universo que nada me pede; na dúvida do sábio, encontrei a liberdade que a certeza do tolo jamais permitiu."

Comentários

Célia Gomes disse…
Que bonito ver vc compartilhar esse aprendizado, aparentemente simples, mas tão profundo... Sinto que sempre damos saltos e aprendemos mais quando nos libertamos das nossas "verdades" que nos aprisionam.
Parabéns por estar constantemente se observando.

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