Objetivo na vida?
O encontro no Café Gerundino, ali onde o centro de São Paulo ainda sussurra ecos do Mosteiro de São Bento, foi o cenário para uma dessas derivas existenciais que ocorrem quando o Ser se despe da pressa. O lugar, refúgio para quem cultiva a filosofia, abriga também aqueles que lá estão apenas pelo repouso, o que é natural e sagrado — afinal, se todos tingissem a existência com o mesmo azul, o que seria da vastidão das cores? Entre xícaras e palavras, minha amiga e eu tecemos diálogos sobre a vida e as correntes que conduzem o indivíduo entre o cenário X e a circunstância Y. A conversa aqueceu-se quando ela, firme em seu Rajas — aquela agitação motora da ambição —, sentenciou que o insucesso humano nasce da carência de objetivos.
Eu, habituada a buscar a dualidade em cada certeza, senti o peso dessa afirmação. Questionei se essa falta de motivação não seria, na verdade, uma reação à tirania do "Ter" objetivos, uma imposição que sufoca o rumo natural da vida antes mesmo que ele possa germinar. A conversa culminava na ideia de evolução, como se a vida fosse uma escada linear onde quem não sobe, padece. Mas quem sou eu para definir o que é o despertar de alguém? As pessoas são moldadas em estruturas diversas e portam valores próprios; ainda que existam verdades universais, a leitura do Dharma — a lei interna — é exclusividade de cada Ser. Eu sempre construirei uma ideia sobre o outro, mas o que ocorre na câmara secreta da alma alheia é território inacessível, onde apenas o próprio indivíduo pode caminhar.
As conquistas, quando ocorrem, são únicas, e o olhar externo que as admira ou critica pouco sabe da experiência que só faz sentido para quem a viveu. Seguindo essa trilha, compreendi que cada Ser possui seu próprio momento de Moksha, o despertar que não aceita padrões e que nos liberta do condicionamento coletivo. Se eu cobrar objetivos baseando-me em um modelo rígido de existência, estarei apenas praticando Viparyaya, o erro de percepção que tenta tapar o sol com a peneira. Há quem chegue aos cinquenta anos sem "saber o que quer", mas quem foi que transformou a busca em obrigação? Seria autêntico abraçar um status apenas para vestir uma máscara de sucesso perante Maya, a grande ilusão social?
Quando obrigo o meu Ser a desejar o que não lhe pertence, fragmento minha própria essência. Pergunto-me se perdemos o direito de estacionar, de contemplar o Purusha — a consciência pura e imóvel —, porque a vontade coletiva agora devora a individualidade. Preocupa-me essa preocupação constante com a performance. Hoje, até o exercício físico perdeu seu caráter de celebração do corpo para se tornar uma obrigação métrica; quanto mais encargos acumulamos, mais nos distanciamos do equilíbrio de Sattva. A angústia que sentimos talvez não seja falta de objetivos, mas a perda da organização sensível das emoções e pensamentos, o esquecimento de que, na profundidade do Ser, já somos tudo o que precisamos ser.

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