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Sobre o Gozo, frase de Hilda Hilst no olhar da filosofia hindu


Sobre o Gozo, frase de Hilda Hilst no olhar da filosofia hindu



“A paixão é a grossa artéria jorrando volúpia, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua camada de emoções, escarlate sobre a tua vida, paixão é esse aberto do teu peito e também o teu deserto” (p. 29) do Livro "A Obscena Senhora D".


A "grossa artéria" de Hilst é a manifestação da Spanda — a vibração primordial ou o latejo da consciência divina (Cit-Śakti) que, ao buscar a si mesma, projeta o universo como volúpia. Para Abhinavagupta, a paixão não é um pecado, mas o Rasa (a essência estética) em seu estado mais cru. É o momento em que o sujeito (Graha) se dissolve no objeto (Grahya) através do fogo do desejo.

Quando a autora fala na "boca que pronuncia o mundo", ela evoca o conceito de Vāc (a Palavra Sagrada). No Rig Veda, a fala é o veículo da criação; a paixão de Hilst é a Vāc encarnada, o verbo que colore o vazio com o "púrpura" e o "escarlate" de Māyā-Śakti. Aqui, a cor não é apenas visual, é o Avarana, o véu que encobre a realidade pura do Brahman para permitir o drama da existência individual.

O "aberto do peito" é a fenda de Hṛdaya, o coração espiritual que, segundo as Upanishads, é o único lugar onde o infinito pode residir. Mas este peito aberto é também o "teu deserto", uma referência direta ao estado de Śūnyatā (o vazio) ou à solidão absoluta do Kaivalya descrita por Patañjali.

A paixão em Hilst é a Parā-Bhakti: um amor tão devastador que consome a dualidade entre o amante e o amado. O "deserto" é a consequência ontológica de quem viu a Realidade através da ferida do desejo: após o jorro da volúpia, o mundo fenomenal revela sua insubstancialidade, restando apenas a vastidão nua da consciência que, finalmente, não possui mais nada a desejar.

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