Felicidades aos Namorados
Tempos atrás, mesmo quando o coração encontrava par, eu nutria um "bode" visceral e altivo pelo Dia dos Namorados. Sob o abrigo de um discurso exigente e por vezes prepotente, eu sentenciei que o afeto não carecia de calendários nem de fetiches materiais. Aos meus olhos de outrora, a data era apenas uma engrenagem fria da máquina comercial, um palco de plástico para sentimentos que deveriam ser livres. Eu vivia o meu próprio mito de Shiva isolado, o asceta que, do topo de seu Kailash intelectual, desprezava as convenções do mundo e as celebrações da matéria, acreditando que a verdade residia apenas na meditação solitária e na negação do supérfluo.
Eu acalentava a crença de que as demonstrações de amor deveriam brotar como flores silvestres, vindas diretamente das profundezas do peito, sem o compasso do relógio social. Afinal, sou feita desse barro: adoro subverter o calendário, bordar surpresas em dias comuns e arquitetar situações para o encantamento fora de hora. Ser surpreendida e presentear sem o pretexto da data é, para mim, um vinho excitante que prefiro sorver no cotidiano. No entanto, é hora de deixar minhas esquisitices de lado, pois aquele meu discurso rígido e quase fascista atravessou o seu próprio inverno e floresceu em mudança. Percebi que, tal como Shiva precisou da persistência amorosa de Parvati para entender que a consciência sem energia é inerte, eu também precisei da doçura do mundo para descer da minha montanha de exigências.
Hoje, em especial, após navegar por tantas mensagens gentis que ecoam pelo mundo virtual, senti o peso das minhas próprias regras desmoronar. Cansada de ditar a ordem de um mundo perfeito e de agir como uma zeladora da moralidade afetiva, concluí: sim, o Dia dos Namorados é o porto seguro de muitas almas. Se as pessoas necessitam de um marco no tempo para celebrar o que sentem, esse dia se faz sagrado pela simples força da necessidade humana. Necessário por mil razões que a razão desconhece, e quem sou eu para interpor meu ego ao rito do outro? Aceito agora que a divindade também se manifesta no gesto de um presente e na pausa de uma celebração.
Aproveitando este novo solo onde piso, gostaria de publicar meus votos de felicidades a todos os que se permitem amar. Desejo que as pessoas celebrem o amor despidas das correntes da possessividade. Que cada amante sinta uma inteireza, para que a presença do outro não seja um preenchimento de lacunas, mas uma expansão de horizontes, tal como a imagem de Ardhanarishvara, onde o masculino e o feminino se fundem em um só corpo sem que nenhum perca sua essência.
Sabemos que toda relação é um tecido tramado com fios de subtração e adição, condição e coesão, choques de realidade e prazos de dúvida. Há tensão em cada dobra, mas desejo, de todo o meu coração, que os amantes cultivem a arte de hospedar o outro em si. Que o amor se alimente de sonhos, mas que suas raízes penetrem a terra da realidade — aquela lucidez que, como o terceiro olho de Shiva, desperta a capacidade de enxergar o outro não como um objeto de desejo, mas como um Ser independente. Que como seres possamos aceitar os jogos do coração ou recusá-los, entendendo com profundidade que amar não é capturar; o outro não é propriedade, é uma alma em sua própria jornada cósmica.
Espero que aqueles que verdadeiramente se amam saibam o momento de renunciar e sacrificar, não por obrigação, mas quando esses atos brotarem da nobreza de espírito, da mesma forma que Parvati renunciou à sua vida palaciana para encontrar a essência no Kailash. Que jamais transformem a renúncia em moeda de troca ou o sacrifício em um pedestal para o ego; que o amor nunca seja usado como um pedágio amargo cobrado na estrada da convivência. Desejo que os amantes semeiem o "amor construído", aquele que caminha passos adiante da paixão efêmera e se casa com a paciência e a qualidade de ouvir o que é necessário.
Finalizo estes votos agradecendo a cada relação que atravessou meu caminho e me promoveu a oportunidade de olhar para trás e extrair lições. Dessas memórias não extraí apenas este texto, mas a maturidade que agora me convida a habitar relações de mais qualidade. Lamento as uniões que se tornaram plásticas, que feneceram antes mesmo de florescer, mas entendo que até o desencontro faz parte da dança cósmica de Nataraja, que destrói o velho para que o novo possa emergir. Não cultivemos prazos de validade para os afetos, mas ousemos vivê-los com a inteireza do agora. O importante é entender o jogo sagrado, deixar-se amar e amar, movendo-se no ritmo eterno do universo onde cada encontro é uma centelha do divino.

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