Pular para o conteúdo principal

Você é capaz de amar Incondionalmente?


Você é capaz de amar Incondionalmente?


Não sei quanto a vocês, mas quanto a mim, sigo observando as flutuações da mente (Vrittis) que insistem em chamar de "amor" o que é apenas o desejo de permanência. Desde que estive na Índia, o sopro de Vayu não apenas derrubou minhas muralhas; ele varreu a poeira das definições. O que eu acreditava ser sólido — minha capacidade de entrega — revelou-se apenas mais uma construção do Ahankara, o ego.
Hoje, reencontrei um rastro desse passado. Alguém que personificava uma paixão rápida, um movimento de Kama (desejo) com data de validade imposta pela minha própria mente. O fim ocorreu quando a dualidade se tornou insuportável: ele buscava o "muito mais", e eu, percebendo que não havia Dharma que sustentasse aquela união, escolhi o silêncio. Na época, agi como quem foge, carregando o peso da autoria — a ilusão de que eu era a causa da dor alheia.
Mas, enquanto a mente tenta se refugiar em seminários ocidentais para justificar a falta, a voz do Tattva sussurra mais alto. O que eu chamava de "dar o que não se tem" é apenas a mecânica de Maya: dois egos trocando reflexos em um labirinto de espelhos. Ele não amava a mulher real, mas a Upasana (projeção) que criou para sustentar seu próprio desejo de ser um devoto impecável. Sua gratidão em "apenas sentir" não era desapego, mas a manutenção de uma imagem que o protegia do risco degradante da verdade.
Diferente do salto de Hanuman, que atravessa o oceano para servir à Realidade (Rama), o nosso encontro foi um mergulho na fantasia. Ele se tornou o amante perfeito de uma estátua; eu, a fugitiva de um altar onde nunca coube.
Saio desse encontro não com a "nobreza" do amor incondicional — essa belíssima armadilha da linguagem — mas com a clareza do Viveka (discernimento). Não há culpa quando se percebe que não há "quem" amar ou "quem" ser amado fora da ordem do absoluto. O que restou foi a leveza de quem reconhece o jogo das formas: uma dança onde o amor, às vezes, é apenas o nome elegante que damos à nossa recusa em enxergar o vazio no outro.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Tantra como Estética da Libertação e a Cura da Miopia Ocidental.

  O Tantra como Estética da Libertação e a Cura da Miopia Ocidental. A consciência repousa no abismo de Shiva (a realidade absoluta, o substrato de pura luz), o silêncio onde o Ser é um estado de Prakasha (o brilho autoluminoso da consciência) que o Shaivismo da Caxemira — a joia não-dualista do Tantra — preserva como o mistério da imanência absoluta. Antes que o tempo fosse contado, as sementes desta sabedoria já germinavam nas margens do Rio Indo, em cultos ancestrais pré-arianos, muito antes de sua sistematização entre os séculos VI e IX d.C., quando o Tantra (etimologicamente a teia, o tear ou o que expande o conhecimento) surgiu como uma reação vibrante ao exclusivismo dos ritos védicos, tecendo a espiritualidade na própria carne do mundo. Diferente do Vedanta que reconhece o mundo material (vyavahara) como empírica ou funcionalmente real. Você não ignora uma parede ao caminhar, mas qualifica a realidade da matéria de maneira diferente, o sábio da Caxemira afirma que o univers...

O Simulacro da Síntese: Uma Anatomia do Misticismo Burocrático

"O campo da espiritualidade contemporânea é frequentemente atravessado por uma tensão invisível: o desejo de transcendência versus a necessidade de controle. Em muitos movimentos que se apresentam como sínteses entre Oriente e Ocidente, observamos o nascimento de uma 'alfândega conceitual' — um sistema onde a experiência do sagrado é fatiada em métricas de progresso e manuais de utilidade social. Este ensaio, escrito a partir da observação de dinâmicas de alto controle e da resistência ética dentro de instituições espirituais, busca dar nome ao mal-estar silencioso que acomete muitos praticantes. Sem recorrer a personalismos, o texto disseca a estrutura da mitomania e da exaustão como virtude, oferecendo um espelho para aqueles que sentem que o Yoga 'fugiu pela janela' no momento em que a instituição se tornou o fim em si mesma. É um convite ao resgate da soberania intelectual e da espiritualidade livre de organogramas." A modernidade assistiu ao nascimento de...

Arjuna diante de uma covardia moral?

  Arjuna diante de uma covardia moral? Saudações caros leitores. Depois de algumas batalhas psíquicas que travei, volto com essa articulação do Bhagavad Gita com a psicanálise. O destaque é para o guerreiro Arjuna  forte e corajoso, porém vulnerável; nobre, mas confuso, contudo, no momento crítico da peleja, a coragem dele cede lugar a uma profunda angústia, a desolação de ver a destruição da família.  No coração do vasto épico Mahabharata, quando os exércitos Kurukshetra se encontram e o estrondo das conchas de guerra anuncia o apocalipse de uma era, o Bhagavad Gita emerge como uma canção divina, um respiro de luz no meio da escuridão iminente. Não é apenas o relato de uma batalha física, mas o diálogo profundo entre a alma humana, representada pelo guerreiro Arjuna, e a consciência suprema, manifestada na forma de Krishna, seu cocheiro.  Essa obra é uma marco na minha vida por ser meu primeiro contato com yoga que ocorreu em minha adolescência. Espero que você desf...