Ao som de Vivaldi e inebriada pelo inverno — que já se despede —, eis que me surge a "Pretensão".
Antes de me perder nas digressões que seguem, busquei o abrigo do dicionário: ato ou efeito de pretender; direito suposto e reivindicado; vaidade exagerada; soberba.
Houve um tempo em que minhas pretensões eram vastas e pueris. Eu pretendia ganhar na loteria, mudar de país, encontrar o amor idealizado da escola e, contraditoriamente, habitar uma cidade abandonada. Pretendia a imortalidade do conforto: viver sob as asas de minha mãe, blindada contra qualquer dor.
Sonhava em largar tudo, morar no mato e, através da poesia, apagar quem eu Era e quem eu Sou.
Supus, com a arrogância dos iludidos, que apenas eu possuía sentimentos profundos; que o mundo orbitava o meu próprio umbigo. Por medo de me magoar, pretendi não casar; por medo da responsabilidade, pretendi não ser mãe. No meu teatro interno, eu era o centro: supunha pessoas constantemente ocupadas comigo, sentindo raiva pelo meu silêncio ou admiração pela minha ausência.
Minha vaidade, essa mestre sutil, ensinou-me o que era "ser superior" — e eu acreditei.
Tive a pretensão de alcançar a Verdade absoluta sem antes me sintonizar na relatividade da vida. Acreditei que, por praticar Yoga, eu era mais sábia e feliz que os demais. Combinei ideias com pessoas que sequer ouvi; supus coincidências com estranhos que jamais conheci.
Tive a pretensão de alcançar a Verdade absoluta sem antes me sintonizar na relatividade da vida. Acreditei que, por praticar Yoga, eu era mais sábia e feliz que os demais. Combinei ideias com pessoas que sequer ouvi; supus coincidências com estranhos que jamais conheci.
Gritava "liberdade" enquanto eu mesma construía as grades da minha prisão com pensamentos limitantes. Proliferei verdades sem discernimento, esquecendo-me da importância de cada ser no mosaico do Universo. Mergulhada nesse narcisismo, arrogantemente achei que o Cosmos deveria se moldar à minha vontade.
Hoje, domar essas pretensões é um exercício árduo, constante e, por vezes, inglório.
A vivência me deu o presente da observação. Aprendi a ouvir mais e a ter paciência com o tempo alheio — e com o meu. Ao encontrar outros iludidos, como eu já fui (e ainda sou), limito-me ao silêncio. Entendo que o despertar é um processo solitário, mas, quando posso, deixo uma pista, da mesma forma que o Universo generosamente espalhou tantas pelo meu caminho.
Agora, tenho a pretensão de acreditar que a melhor forma de lidar com este mundo de ilusões é permitir-se a "solidão acompanhada". Pois como obter sabedoria sem o contraponto do outro? É no convívio que o movimento do Universo se revela.
Enfim, após tantas palavras, Vivaldi continua a me escoltar, agora com seu movimento de Primavera.
Que o florescimento da sabedoria me invada. Que, apesar dos tropeços, eu ainda me permita ouvir, refletir e respeitar o "Caminho do Meio".
Hahaha... quanta pretensão a minha!
No mais, ouçam Vivaldi. É sublime celebrar a mudança das estações. Sintam esse momento mutável que nos guia para a força da primavera. Há um sopro novo na manhã, um hálito específico que me faz respirar fundo — mas isso é tão sutil que não terei a pretensão de descrever.
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