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Tudo depende de um ponto de vista - Parte II

No silêncio de um retiro, onde o corpo se faz templo e o fôlego se torna oração, brotou uma inquietação sobre as aparentes distâncias entre as margens do Samkhya e do Vedanta. De um lado, o olhar que divide para compreender; do outro, o olhar que funde para ser. Diante dessa encruzilhada de conceitos, surgiu uma sabedoria simples e vasta: a de que a verdade não se altera pelo ponto de vista, mas sim pela altura de quem observa. É como o caminhante que contempla a montanha. Quem está na base, entre as raízes e as pedras, descreve o terreno em suas ranhuras e detalhes necessários, discernindo cada sombra e relevo. Mas quem atinge o cume, banhado pelo horizonte, enxerga apenas a unidade da paisagem, onde as trilhas se perdem no todo. Ambas as visões são legítimas, pois descrevem o mesmo solo; ambas são necessárias, pois são a mesma jornada vista de altitudes distintas. Perder-se no labirinto das discussões intelectuais é, por vezes, esquecer que os pés buscam o mesmo destino. Se o objetiv...

E tudo depende de um ponto de vista

Certa vez, em uma aula de Vedanta, fui apresentado a uma reflexão profunda sobre a percepção humana que decidi recontar aqui, sob a minha própria perspectiva, como um conto sobre o "ponto de vista". Um grupo de filósofos cegos debatia fervorosamente sobre a essência de um elefante. Como baseavam suas conclusões estritamente nas experiências dos sentidos remanescentes — tato, olfato e paladar — as divergências eram inevitáveis. Após longas disputas teóricas, decidiram realizar um trabalho de campo: foram conduzidos a uma praça onde repousava uma escultura de madeira representando o animal. O primeiro a se aproximar tateou a orelha da peça e sentenciou que o elefante possuía um formato que muito se assemelhava a uma grande folha de árvore. Logo em seguida, outro filósofo alcançou o marfim e a tromba, retrucando que o animal era, na verdade, uma combinação de chifres rígidos e um nariz extenso como uma mangueira. Um terceiro, ao tocar a barriga da escultura, exclamou que os dema...

Ao meu caro amigo

Ao meu caro amigo, O caminho, em sua essência imutável, permanece o mesmo, ainda que a pele que o habita troque de vestes e de eras. É curioso notar como o hoje sempre foi o ontem disfarçado, uma repetição de ciclos onde a casca muda, mas o desafio central do humano resiste: a árdua e simples tarefa de ser. O que nos afasta dessa trilha, contudo, não são as curvas do destino, mas as máscaras que moldamos no barro do medo. Esse medo, arquiteto da paralisia, atua como um mediador traiçoeiro que nos furta a capacidade de simplesmente existir, ignorando que o sofrimento, como bem articulou Mircea Eliade em seus estudos sobre o Yoga, nasce justamente dessa "dor de existir" — o peso de estar preso ao tempo e às formas. Para o pensamento iogue, essa dor não é um castigo, mas o reconhecimento de que tudo o que é temporal está sujeito ao ciclo de nascimento e morte. Ao buscarmos o "mundo das ideias" como fuga, exercitamos a nossa capacidade de inferir: esse poder fantástico ...

Vivência com Trataka em setembro 2009

Vivência com Trataka em setembro 2009 Neste sábado através do Instituto Nicole Witek, realizei um workshop sobre "Yoga para os Olhos", ou "Resgate da Visão Ocular. Muito mais do que uma proposta fisiológica, o workshop chama a atenção para as propriedades da visão e como conseguimos usá-la nos modos de vida atuais. O workshop foi baseado nas técnicas de Trataka. Trataka significa “fixar o olhar”. A aplicação limpa e exercita os músculos dos nervos ópticos, além de descansar a vista e promover um bom relaxamento. Existem muitos exercícios de trataka, alguns com a visualização de figuras geométrica e outras com a fixação do olhar em alguma parte do corpo ou em uma chama de vela. As primeiras descrições sobre trataka fazem referência do uso de uma lamparina com óleo de castor que produzia um brilho e luminosidade especiais. O olho para os hindus representa um elemento da natureza que é o fogo, sendo que, pela luz a figura é manifestada e pelo calor a forma é reconhecida, fi...

Como é duro andar de ônibus em S. Paulo

Esta é uma correspondência que enviei para Milton Jung, jornalista âncora do Programa CBN S. Paulo. Gostaria de retratar algumas coisas que pude perceber nos percursos que realizo de ônibus, em geral, circulo pela Av. Brigadeiro Luís Antonio centro até o Itaim ou Brigadeiro Luís Antonio para Morumbi. Em geral utilizo muito a linha Terminal Capelinha. Esta linha possui veículos com designer muito esquisito e na minha opinião, super mal planejados. Apesar de oferecerem conforto para embarque porque os degraus não são altos, não facilitaram as coisas quando desenvolveram escadas no espaço que antecede a catraca ou o espaço que nos conduz ao fundo do ônibus, as vezes, o fundo do ônibus é onde está localizada a única porta para desembarque. As poltronas deste tipo de veículo são mais estreitas, reduziram os assentos e há pouco conforto nos encostos, digo, não há como manter boa postura com tais poltronas. Há braços fixos dos quais somados a falta de espaço impedem a mobilidade de quem opta ...

Pretensão

Ao som de Vivaldi e inebriada pelo inverno — que já se despede —, eis que me surge a "Pretensão". Antes de me perder nas digressões que seguem, busquei o abrigo do dicionário: ato ou efeito de pretender; direito suposto e reivindicado; vaidade exagerada; soberba. Houve um tempo em que minhas pretensões eram vastas e pueris. Eu pretendia ganhar na loteria, mudar de país, encontrar o amor idealizado da escola e, contraditoriamente, habitar uma cidade abandonada. Pretendia a imortalidade do conforto: viver sob as asas de minha mãe, blindada contra qualquer dor. Sonhava em largar tudo, morar no mato e, através da poesia, apagar quem eu Era e quem eu Sou. Supus, com a arrogância dos iludidos, que apenas eu possuía sentimentos profundos; que o mundo orbitava o meu próprio umbigo. Por medo de me magoar, pretendi não casar; por medo da responsabilidade, pretendi não ser mãe. No meu teatro interno, eu era o centro: supunha pessoas constantemente ocupadas comigo, sentindo raiva pelo me...

Rave, uma grande experiência

A primeira vez que o eco das raves alcançou meus ouvidos foi pelo tubo catódico da televisão, pintado com as cores alarmistas de uma reportagem que reduzia o fenômeno a um deserto de "bate-estaca" e ao paraíso artificial das substâncias químicas. A narrativa mediática insistia que aquela pulsação mecânica servia apenas como combustível para o êxtase, soldando, no imaginário popular, o ritmo ao vício. Como uma fiel devota do indie rock, ergui muros de reserva em torno dessa aventura; não por puritanismo em relação ao que circula nas veias da noite — afinal, o submundo frequenta tanto os bares sofisticados quanto as pistas de terra —, mas por uma resistência melódica aos sons sintéticos. Minha trajetória, contudo, provou que a experiência é um prisma que depende da luz de cada um: dos valores carregados na mochila da alma e do caminho trilhado até o primeiro passo na grama. Até aquele outono, a curiosidade era uma brasa adormecida, aguardando o sopro do destino. Ele veio pelas ...