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Objetivo na vida?

Objetivo na vida? O encontro no Café Gerundino, ali onde o centro de São Paulo ainda sussurra ecos do Mosteiro de São Bento, foi o cenário para uma dessas derivas existenciais que ocorrem quando o Ser se despe da pressa. O lugar, refúgio para quem cultiva a filosofia, abriga também aqueles que lá estão apenas pelo repouso, o que é natural e sagrado — afinal, se todos tingissem a existência com o mesmo azul, o que seria da vastidão das cores? Entre xícaras e palavras, minha amiga e eu tecemos diálogos sobre a vida e as correntes que conduzem o indivíduo entre o cenário X e a circunstância Y. A conversa aqueceu-se quando ela, firme em seu Rajas — aquela agitação motora da ambição —, sentenciou que o insucesso humano nasce da carência de objetivos. Eu, habituada a buscar a dualidade em cada certeza, senti o peso dessa afirmação. Questionei se essa falta de motivação não seria, na verdade, uma reação à tirania do "Ter" objetivos, uma imposição que sufoca o rumo natural da vida an...

Sobre o Gozo, frase de Hilda Hilst no olhar da filosofia hindu

Sobre o Gozo, frase de Hilda Hilst no olhar da filosofia hindu “A paixão é a grossa artéria jorrando volúpia, é a boca que pronuncia o mundo, púrpura sobre a tua camada de emoções, escarlate sobre a tua vida, paixão é esse aberto do teu peito e também o teu deserto” (p. 29) do Livro "A Obscena Senhora D". A "grossa artéria" de Hilst é a manifestação da Spanda — a vibração primordial ou o latejo da consciência divina (Cit-Śakti) que, ao buscar a si mesma, projeta o universo como volúpia. Para Abhinavagupta, a paixão não é um pecado, mas o Rasa (a essência estética) em seu estado mais cru. É o momento em que o sujeito (Graha) se dissolve no objeto (Grahya) através do fogo do desejo. Quando a autora fala na "boca que pronuncia o mundo", ela evoca o conceito de Vāc (a Palavra Sagrada). No Rig Veda, a fala é o veículo da criação; a paixão de Hilst é a Vāc encarnada, o verbo que colore o vazio com o "púrpura" e o "escarlate" de Māyā-Śakti. Aq...

Um Errante, mas não tão Errante

Um Errante, mas não tão Errante  Certo dia, o chamado de uma amiga para "aquela gelada" trouxe a urgência de colocar o "tricô" em dia. Escolhemos o asfalto de um buteco qualquer, onde a contenção de despesas encontra a diversão do real. Falávamos de homens, o tema inevitável, até que uma figura exótica atravessou a calçada com um cãozinho de madame. O sujeito, um ator baiano de fala magnética e sonhos de Chef, acabou por lançar uma cantada em minha amiga. Quando o garçom sentenciou o "vamu fecha o ba", mudamos de balcão para a saideira, e foi ali, entre o avanço do ator e o silêncio do outro, que o acompanhante — o ex-skinhead — passou a existir. Ao puxar o fio da conversa, o que emergiu foi a densidade do adharma: aquela ação que desarranja a ordem das coisas, o passo dado fora da cadência universal. Ele entregou a crueza de quem habitou o descaminho, a xenofobia e o ódio; um ser humano atordoado pela opressão de uma sociedade cujas limitações ele mesmo a...

Grande dica para quem pretende praticar Yoga

"Você já sentiu que o Yoga não era para você por não ser 'calmo' ou 'flexível' o suficiente? Muitas vezes, a imagem comercial da prática nos afasta da sua verdadeira essência. O Yoga não é uma performance; é uma tecnologia de libertação. Nas próximas linhas, convido você a despir-se dos pré-julgamentos e descobrir como essa filosofia milenar pode nos ensinar, acima de tudo, a habitar o próprio centro em meio ao caos do mundo." Ouve-se, por entre os ecos das conversas vãs, o sussurro de que o Yoga pertence apenas aos calmos ou aos que possuem corpos de junco, flexíveis ao vento. Grande equívoco. Não se exige a perfeição física para atravessar o portal; o Yoga não pede normas estéticas, pede apenas a coragem de chegar como se é. Embora muitos busquem o tapete pela elasticidade, o Yoga Clássico ensina que o alicerce não reside na postura, mas na conduta. Antes do movimento, a tradição nos oferece os Yamas e Nyamas: bússolas éticas para o mundo externo e para o al...

Tudo depende de um ponto de vista - Parte II

No silêncio de um retiro, onde o corpo se faz templo e o fôlego se torna oração, brotou uma inquietação sobre as aparentes distâncias entre as margens do Samkhya e do Vedanta. De um lado, o olhar que divide para compreender; do outro, o olhar que funde para ser. Diante dessa encruzilhada de conceitos, surgiu uma sabedoria simples e vasta: a de que a verdade não se altera pelo ponto de vista, mas sim pela altura de quem observa. É como o caminhante que contempla a montanha. Quem está na base, entre as raízes e as pedras, descreve o terreno em suas ranhuras e detalhes necessários, discernindo cada sombra e relevo. Mas quem atinge o cume, banhado pelo horizonte, enxerga apenas a unidade da paisagem, onde as trilhas se perdem no todo. Ambas as visões são legítimas, pois descrevem o mesmo solo; ambas são necessárias, pois são a mesma jornada vista de altitudes distintas. Perder-se no labirinto das discussões intelectuais é, por vezes, esquecer que os pés buscam o mesmo destino. Se o objetiv...

E tudo depende de um ponto de vista

Certa vez, em uma aula de Vedanta, fui apresentado a uma reflexão profunda sobre a percepção humana que decidi recontar aqui, sob a minha própria perspectiva, como um conto sobre o "ponto de vista". Um grupo de filósofos cegos debatia fervorosamente sobre a essência de um elefante. Como baseavam suas conclusões estritamente nas experiências dos sentidos remanescentes — tato, olfato e paladar — as divergências eram inevitáveis. Após longas disputas teóricas, decidiram realizar um trabalho de campo: foram conduzidos a uma praça onde repousava uma escultura de madeira representando o animal. O primeiro a se aproximar tateou a orelha da peça e sentenciou que o elefante possuía um formato que muito se assemelhava a uma grande folha de árvore. Logo em seguida, outro filósofo alcançou o marfim e a tromba, retrucando que o animal era, na verdade, uma combinação de chifres rígidos e um nariz extenso como uma mangueira. Um terceiro, ao tocar a barriga da escultura, exclamou que os dema...

Ao meu caro amigo

Ao meu caro amigo, O caminho, em sua essência imutável, permanece o mesmo, ainda que a pele que o habita troque de vestes e de eras. É curioso notar como o hoje sempre foi o ontem disfarçado, uma repetição de ciclos onde a casca muda, mas o desafio central do humano resiste: a árdua e simples tarefa de ser. O que nos afasta dessa trilha, contudo, não são as curvas do destino, mas as máscaras que moldamos no barro do medo. Esse medo, arquiteto da paralisia, atua como um mediador traiçoeiro que nos furta a capacidade de simplesmente existir, ignorando que o sofrimento, como bem articulou Mircea Eliade em seus estudos sobre o Yoga, nasce justamente dessa "dor de existir" — o peso de estar preso ao tempo e às formas. Para o pensamento iogue, essa dor não é um castigo, mas o reconhecimento de que tudo o que é temporal está sujeito ao ciclo de nascimento e morte. Ao buscarmos o "mundo das ideias" como fuga, exercitamos a nossa capacidade de inferir: esse poder fantástico ...