Logo que concluí minha formação em Yoga, sentia-me um "ET" — alguém que acabara de descobrir um novo universo, mas que ainda não pertencia totalmente a ele. As práticas e o convívio com meus mentores provocaram transformações profundas; eu estava ávida por transmitir cada descoberta com o entusiasmo de quem acredita, ingenuamente, saber tudo. No entanto, a prática do ensino logo impôs um choque de realidade: no momento de transmitir o que julgamos ter aprendido, as coisas tomam rumos inesperados. Percebi que podemos nos tornar vítimas de nossas próprias teorias, seja pela falta de vivência ou pela parcialidade típica de quem julga em vez de deixar fluir.
Nosso "amigo urso", o Ego, exige vigilância constante. Sem esse cuidado, nós, instrutores, corremos o risco de impor verdades sem medir a realidade que cerca quem nos procura. É vital repensar, reavaliar e, acima de tudo, adaptar nossas ideias para transmitir o Yoga com imparcialidade e respeito. Afinal, lidamos com uma filosofia complexa e distinta da nossa cultura. O aprofundamento nas escrituras é um meio valioso de conhecimento, mas, quando desacompanhado da experiência viva, pode se tornar um veneno. O desafio inicial do instrutor é jamais esquecer o ser humano por trás do praticante — alguém com vontade e objetivos próprios. Não cabe a nós ditar o que o outro deve buscar, mas sim oferecer ferramentas para que ele perceba o Yoga naturalmente, pois o resultado final é de sua inteira responsabilidade.
Essa reflexão me faz questionar constantemente se estou oferecendo mecanismos suficientes. Lembro-me sempre de um conselho familiar: "Aquele que prega, mas não emprega, está enganando a si mesmo". Tratar os manuais com excesso de formalidade muitas vezes afasta o aluno da observação do próprio corpo, que é onde o entendimento real floresce. Recentemente, um episódio com praticantes que atendia ilustrou essa necessidade de quebrar paradigmas. Ao ouvir sobre o uso de aparelhos de ginástica tecnológicos para fins terapêuticos, minha reação imediata, baseada em antigos preconceitos, foi de negação. Mas logo percebi que eu não sou dona da verdade. No Hatha Yoga, o corpo é a âncora da mente; quando o liberamos de tensões, a mente se torna serena e capaz de romper padrões ilusórios.
Ao notar que alguns buscavam resultados mais palpáveis para problemas físicos, tive um insight. Resolvi abandonar o hermetismo e compartilhei materiais de anatomia aplicada à prática, como os da Bandha Yoga. Ao visualizarem o funcionamento muscular de cada postura, eles ficaram maravilhados: "Agora posso compreender o que faço!". Para nós, ocidentais, o visual costuma ser a ponte para o sentir. Percebi que guardar esse conhecimento era uma atitude limitante; o aluno precisa desse mapeamento real para evoluir. Como diz um grande amigo, "a gente aprende mais do que ensina". Se algo serve ao seu bem-estar, não perca tempo com julgamentos. Seja no alinhamento rigoroso ou na fluidez dinâmica, o importante é o Sadhana — a prática consciente. A verdade é relativa, e o melhor caminho é continuar fluindo.
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