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Sinto porque o corpo Fala

Sinto porque o corpo Fala Há algum tempo, cruzei o caminho de uma entusiasta fervorosa da obra de Cristina Cairo sobre a linguagem do corpo. Embora o nome me ecoe familiar, confesso que as páginas dessa teoria permanecem, para mim, como um mapa ainda não desbravado. No estágio atual da minha jornada, tenho dedicado meus dias a transpor os ensinamentos do Hatha Yoga para o território concreto da existência, colhendo o néctar prático de outros darshanas indianos que servem de bússola ao meu caminhar. Sustento a convicção de que o verdadeiro pesquisador é aquele que transforma a própria vida em um laboratório, testando em si a eficácia do saber antes de erguer qualquer muro de julgamento sobre o outro. Afinal, a sabedoria não é um troféu intelectual, mas, como bem dizia um amigo, um ganho de causa. Pode-se questionar o que essa postura filosófica tem a ver com a premissa de que o corpo fala. A resposta reside na experiência direta: mesmo sem as chaves teóricas de Cairo, o Hatha Yoga me pe...

Mulheres na Índia, Mulheres em toda parte?

Mulheres na Índia, Mulheres em toda parte? Em dezembro passado, deixei o Brasil envolta na crença de que meus pés habitavam o chão da realidade quanto às expectativas sobre a Índia. Embora estivesse amparada pelas valiosas informações do Lonely Planet, gentilmente indicado por um amigo, a prática me ensinou que manter os pés no solo exige, acima de tudo, a habilidade da adaptação. É imprescindível que as mulheres consultem guias e relatos antes de se lançarem a esse destino. Talvez eu tenha chegado com um olhar tingido pelo pessimismo, o que contribuiu para agravar as situações que vivi: as exaustivas horas de voo, o cansaço profundo e o fuso horário misturaram-se a um cenário de barricadas, homens empunhando espingardas, detectores de metais e revistas constantes — rigores aos quais os sentidos brasileiros não estão habituados. Tudo isso compunha uma atmosfera densa, que pesava sobre a minha jornada. Essa densidade tornou-se absoluta quando eu e minha companheira de viagem nos perceb...

Felicidades aos Namorados

Felicidades aos Namorados Tempos atrás, mesmo quando o coração encontrava par, eu nutria um "bode" visceral e altivo pelo Dia dos Namorados. Sob o abrigo de um discurso exigente e por vezes prepotente, eu sentenciei que o afeto não carecia de calendários nem de fetiches materiais. Aos meus olhos de outrora, a data era apenas uma engrenagem fria da máquina comercial, um palco de plástico para sentimentos que deveriam ser livres. Eu vivia o meu próprio mito de Shiva isolado, o asceta que, do topo de seu Kailash intelectual, desprezava as convenções do mundo e as celebrações da matéria, acreditando que a verdade residia apenas na meditação solitária e na negação do supérfluo. Eu acalentava a crença de que as demonstrações de amor deveriam brotar como flores silvestres, vindas diretamente das profundezas do peito, sem o compasso do relógio social. Afinal, sou feita desse barro: adoro subverter o calendário, bordar surpresas em dias comuns e arquitetar situações para o encantamen...

Você é capaz de amar Incondionalmente?

Você é capaz de amar Incondionalmente? Não sei quanto a vocês, mas quanto a mim, sigo observando as flutuações da mente (Vrittis) que insistem em chamar de "amor" o que é apenas o desejo de permanência. Desde que estive na Índia, o sopro de Vayu não apenas derrubou minhas muralhas; ele varreu a poeira das definições. O que eu acreditava ser sólido — minha capacidade de entrega — revelou-se apenas mais uma construção do Ahankara, o ego. Hoje, reencontrei um rastro desse passado. Alguém que personificava uma paixão rápida, um movimento de Kama (desejo) com data de validade imposta pela minha própria mente. O fim ocorreu quando a dualidade se tornou insuportável: ele buscava o "muito mais", e eu, percebendo que não havia Dharma que sustentasse aquela união, escolhi o silêncio. Na época, agi como quem foge, carregando o peso da autoria — a ilusão de que eu era a causa da dor alheia. Mas, enquanto a mente tenta se refugiar em seminários ocidentais para justificar a falta...

Pare

Pare Houve um dia em que me vi mergulhada no fluxo de situações que insistiam em se repetir, como ecos de uma canção antiga que eu já não desejava ouvir. Após longos dias em silêncio, de uma análise que atravessou as camadas da alma, cheguei a uma única palavra, absoluta e necessária: "Pare". Ao desenvolver esse pensamento, percebi que esse silenciar era o despertar do meu Purusha, a consciência que observa além do movimento. Parei e observei tudo à minha volta, questionando se as repetições eram fios tecidos pelo passado, e a resposta ressoou com clareza: sim, é muito provável. Não se tratava apenas de uma conexão com eventos idos, mas de uma amarra profunda aos Samskaras, aquelas sequelas e impressões que o tempo gravou em meu ser. Compreendi que, ao não refletir, eu permitia que a matéria e a memória — a densa Prakriti — ditassem o ritmo dos meus dias. Mas, ao evocar o "Pare", ativei meu Buddhi, o intelecto superior que discerne e liberta. Decidi, então, mudar me...

Sim Sou Focada mas...

Sim Sou Focada mas... Assim que voltei da Índia, no começo de fevereiro de 2012, muitas pessoas que encontrei me disseram: — "Nossa, como você é focada! Você idealizou sua ida e realizou. Você conseguiu ir para a Índia, nem acredito!" Confesso que estas frases me deixaram com medo. Medo porque me preocupo com este tipo de pensamento que simplifica o processo. É uma doce ilusão pensar na viagem apenas pela viagem, ou focar meramente no resultado da conquista. Afinal, o que será que passei — e o que ainda estou passando — para realizar esta jornada? O fato de ter realizado "a viagem" tem relação direta com minha prática pessoal de Yoga; isso transformou minha vida. A mente focada e a energia de conquista se solidificaram em 11 anos de prática. É uma jornada pequena para quem pensa, como eu, que todos os dias há sempre o que aprender. Para o Samkhya, somos o observador (Purusha) aprendendo a não se escravizar pelas flutuações da natureza (Prakriti), e minha viagem foi...

Astrologia para que?

Astrologia para que? Você já sentiu como um viajante que carrega um mapa indecifrável, onde cada coordenada, em vez de iluminar o caminho, apenas aumenta o peso da bagagem? Muitas vezes naufragamos em um mar de termos técnicos, sufocados por um "Mercúrio nervoso" ou posicionamentos que parecem sentenças frias para nossa espontaneidade. É um incômodo silencioso sentir a vida reduzida a etiquetas de prateleira, onde a complexidade da alma é traduzida por definições que não conversam com o coração, transformando o que deveria ser uma bússola de autoconhecimento em um labirinto de espelhos distorcidos e sem vida. Essa sede por profundidade me levou a mergulhar nos estudos, mas a resposta não veio no tempo das minhas expectativas, e acabei trocando os mapas celestes pelo tapete de Yoga. Contudo, o céu nunca deixou de me observar, pois o universo fala através de uma gramática sagrada que nem sempre estamos prontos para ouvir: o simbolismo. Eu era aquela que buscava nos outros as re...