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O Simulacro da Síntese: Uma Anatomia do Misticismo Burocrático

Introdução Contextual  "O campo da espiritualidade contemporânea é frequentemente atravessado por uma tensão invisível: o desejo de transcendência versus a necessidade de controle. Em muitos movimentos que se apresentam como sínteses entre Oriente e Ocidente, observamos o nascimento de uma 'alfândega conceitual' — um sistema onde a experiência do sagrado é fatiada em métricas de progresso e manuais de utilidade social. Este ensaio, escrito a partir da observação de dinâmicas de alto controle e da resistência ética dentro de instituições espirituais, busca dar nome ao mal-estar silencioso que acomete muitos praticantes. Sem recorrer a personalismos, o texto disseca a estrutura da mitomania e da exaustão como virtude, oferecendo um espelho para aqueles que sentem que o Yoga 'fugiu pela janela' no momento em que a instituição se tornou o fim em si mesma. É um convite ao resgate da soberania intelectual e da espiritualidade livre de organogramas."  O Simulacro da ...

A Contabilidade do Vazio: Karma, Dharma e a Ilusão do Eu

A Contabilidade do Vazio: Karma, Dharma e a Ilusão do Eu A transposição de débito e crédito para a metafísica é o triunfo do pensamento mercantil sobre o sagrado. O Ocidente, herdeiro de uma lógica de trocas e tribunais, tentou domesticar o Karma transformando-o em uma contabilidade moralista. Nessa visão atrofiada, o Universo é reduzido a um gerente de banco e o indivíduo a um cliente tentando evitar a falência espiritual.  Essa lógica é a ferramenta definitiva do Ahamkara (o "fabricante do eu", a função de autoria). Ao tratar a existência como uma planilha, o Ahamkara se autodenomina o gestor do "patrimônio" ético, vestindo a moralidade como quem busca uma chancela de santidade. Ele usa a caridade para mitigar o medo e o rito para subornar o destino, ignorando que o que vibra sob o pano é o desejo do fruto. É a moralidade como apólice de seguro: faz-se o "bem" não por alinhamento, mas por pânico do prejuízo. O resultado é o fortalecimento de Bandha (o nó...

Arjuna diante de uma covardia moral?

  Arjuna diante de uma covardia moral? Saudações caros leitores. Depois de algumas batalhas psíquicas que travei, volto com essa articulação do Bhagavad Gita com a psicanálise. O destaque é para o guerreiro Arjuna  forte e corajoso, porém vulnerável; nobre, mas confuso, contudo, no momento crítico da peleja, a coragem dele cede lugar a uma profunda angústia, a desolação de ver a destruição da família.  No coração do vasto épico Mahabharata, quando os exércitos Kurukshetra se encontram e o estrondo das conchas de guerra anuncia o apocalipse de uma era, o Bhagavad Gita emerge como uma canção divina, um respiro de luz no meio da escuridão iminente. Não é apenas o relato de uma batalha física, mas o diálogo profundo entre a alma humana, representada pelo guerreiro Arjuna, e a consciência suprema, manifestada na forma de Krishna, seu cocheiro.  Essa obra é uma marco na minha vida por ser meu primeiro contato com yoga que ocorreu em minha adolescência. Espero que você desf...

Egoísmo e abnegação

Hari om! Segundo Satyananda, egoísmo e a abnegação são mutuamente exclusivos, onde um há, o outro não pode existir. Se uma pessoa é egoísta em uma ação ou pensamento, logo ela não pode ser altruísta. O altruísmo leva ao despertar do potencial humano, porque é uma necessidade, enquanto que o egoísmo impede e cria obstáculos. Por outro lado, será que ações ou pensamentos egoístas isolados, determinam o altruísmo de alguém? O egoísmo não pode ser exterminado instantaneamente, depende do sadhana ou abhyasa que é um termo do sânscrito, em devanagari: (साधनम्) que significa prática espiritual, é a prática diária do Yoga ou do tantrismo que leva o praticante à meta do Yoga que é moksha (liberação). Consideremos que a prática não é diária, pois ela se dá a todo instante, e talvez dizer que ela é diária pode reduzi-la ao que acontece no tapete. O extermínio do egoísmo se dá através da meditação em purusa (consciência testemunha), neste caso, hábil para lidar com "um obscuro conhecimen...

Praticante de yoga fora do tapete?

Praticante de yoga fora do tapete? Querido leitor! Querido leitor, Hari Om! Alguma vez você já silenciou o ruído das técnicas para perguntar ao próprio abismo: por que, afinal, decidi caminhar pela via do Yoga? O que resta dessa prática quando o tapete é dobrado e o incenso se apaga? O que é ser um praticante quando o corpo não está em asana, mas em colisão com o mundo? Pergunto-me se essa "espiritualidade" que tanto buscamos não se tornou um esconderijo. Afinal, és um praticante sincero e austero ou apenas um colecionador de rituais que servem para te manter, em segurança, na margem de si mesmo? Eu escrevi praticante. Pois há quem use o sagrado apenas para decorar a superfície, evitando o mergulho nas águas turvas da própria sombra. Fora do tapete, a ética deixa de ser uma tábua de mandamentos e torna-se a própria textura do seu caminhar. Como você lida com o Outro — esse espelho incômodo que é outra cultura, outra dor, outra sociedade? Você conhece os Yamas e Niyamas como ...

Aos alunos com carinho

Aos alunos com carinho Saudações primaveris, Queridos Leitores. Após uma década de travessia no Yoga, rompo o silêncio para compartilhar a colheita de dez anos de solo e alma. Este texto nasce de duas intersecções: um trocadilho que o título carrega e uma reflexão sobre a utopia no autoconhecimento. Se buscam aqui o misticismo que entorpece, sinto desapontar; minha oferta hoje é o real. No alvorecer da minha carreira, eu era habitada por uma crença messiânica. Imaginava que o Yoga era a chave absoluta, capaz de abrir todas as portas da cura, da paz e da resolução de conflitos. Eu via no "Outro" alguém que precisava ser salvo por mim, e nessa missão, vesti o arquétipo da salvadora. Contudo, ao tentar carregar o mundo nas costas, esqueci-me de que o mundo tem o seu próprio peso. O tempo, senhor da verdade, trouxe a sobrecarga. A energia escoou, os projetos paralisaram e a consciência nublou. Vi-me secundária em minha própria vida, culminando em um colapso necessário. Foi ali qu...

Al Hoda - Siga Seu Caminho

"Saudações! Enfim a primavera, embora as fronteiras entre as estações pareçam cada vez mais tênues. Recentemente, um diálogo sobre as linhas do Yôga me levou a uma profunda autodescoberta. É comum ouvirmos que existem cinco caminhos; embora funcionem em conjunto, todos temos nossas facilidades e abismos. O meu é o Bhakti. Sentada à mesa com um monge, ouvi que meu Yôga era teórico demais. 'A devoção está no comer com felicidade', disse ele. Aquilo me atingiu. Eu comia por subsistência, de forma autômata, distante do entusiasmo de quem realmente experimenta a vida. Recordando as punições que sofri na infância para comer, entendi por que, mesmo frequentando ótimos lugares, nunca sei indicar um prato: eu não estava lá. Eu me tornei uma propagadora da 'experiência' que não conseguia sentir o sabor do próprio almoço." J"Justo eu, que tanto propago o 'Sujeito da Experiência', vi-me vazia de vivência à mesa. Embora frequentasse bons restaurantes, era inc...