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Al Hoda - Siga Seu Caminho

"Saudações! Enfim a primavera, embora as fronteiras entre as estações pareçam cada vez mais tênues. Recentemente, um diálogo sobre as linhas do Yôga me levou a uma profunda autodescoberta. É comum ouvirmos que existem cinco caminhos; embora funcionem em conjunto, todos temos nossas facilidades e abismos. O meu é o Bhakti. Sentada à mesa com um monge, ouvi que meu Yôga era teórico demais. 'A devoção está no comer com felicidade', disse ele. Aquilo me atingiu. Eu comia por subsistência, de forma autômata, distante do entusiasmo de quem realmente experimenta a vida. Recordando as punições que sofri na infância para comer, entendi por que, mesmo frequentando ótimos lugares, nunca sei indicar um prato: eu não estava lá. Eu me tornei uma propagadora da 'experiência' que não conseguia sentir o sabor do próprio almoço." J"Justo eu, que tanto propago o 'Sujeito da Experiência', vi-me vazia de vivência à mesa. Embora frequentasse bons restaurantes, era inc...

Quem comanda o tempo?

Quem comanda o tempo? A palavra tempo, no português, define-se como a duração calculável das coisas e a sucessão limitada de momentos em oposição à eternidade. Mas a forma como habitamos esses intervalos revela muito sobre nossa saúde mental e nossa verdadeira liberdade. Na tradição do Yoga, o tempo cronológico — o relógio que nos dita — é chamado de Kala, mas o sofrimento surge quando nos perdemos nele e esquecemos nossa natureza essencial, que é atemporal. Muitas vezes, somos engolidos por uma ânsia de realizar zilhões de tarefas sem questionar o propósito desse esforço. Vivemos o que Christophe Dejours identifica como a centralidade do trabalho, onde a atividade profissional deixa de ser apenas um meio de subsistência para se tornar o eixo único da identidade. Sob a ótica filosófica, caímos no estado de Rajas: uma agitação frenética que nos faz acreditar que nossa existência só tem valor se estivermos produzindo. É a manifestação de Avidya, a ignorância sobre quem realmente somos al...

Mulher, Mulher! Que escola que você foi ensinada?

Mulher, Mulher! Que escola que você foi ensinada? Começo esta reflexão com uma estrofe da música de Erasmo Carlos que era cantada pela minha mãe. Hoje ela já não canta tanto, mas continua firme em sua caminhada. Se hoje posso escrever estas linhas e expressar minha voz, é porque herdei dela a consciência de que nossa existência é uma conquista diária. "Mulher, mulher! Que escola você foi ensinada? Jamais tirei um 10. Sou forte, mas não chego aos seus pés." Esses versos sempre me pareceram um reconhecimento de superioridade — talvez um escudo necessário que minha mãe ergueu para enfrentar as injustiças que sofreu. Meu pai, alcoólatra e frequentemente violento, fez com que a separação ocorresse muito cedo. O trauma foi tamanho que, aos oito meses de gestação, um susto terrível causado pela violência dele me fez "escolher" ocupar apenas o lado esquerdo do corpo dela. O resultado foram dores atrozes para ela e, para mim, o "brinde" de uma orelha de abano. Dess...

Sinto porque o corpo Fala

Sinto porque o corpo Fala Há algum tempo, cruzei o caminho de uma entusiasta fervorosa da obra de Cristina Cairo sobre a linguagem do corpo. Embora o nome me ecoe familiar, confesso que as páginas dessa teoria permanecem, para mim, como um mapa ainda não desbravado. No estágio atual da minha jornada, tenho dedicado meus dias a transpor os ensinamentos do Hatha Yoga para o território concreto da existência, colhendo o néctar prático de outros darshanas indianos que servem de bússola ao meu caminhar. Sustento a convicção de que o verdadeiro pesquisador é aquele que transforma a própria vida em um laboratório, testando em si a eficácia do saber antes de erguer qualquer muro de julgamento sobre o outro. Afinal, a sabedoria não é um troféu intelectual, mas, como bem dizia um amigo, um ganho de causa. Pode-se questionar o que essa postura filosófica tem a ver com a premissa de que o corpo fala. A resposta reside na experiência direta: mesmo sem as chaves teóricas de Cairo, o Hatha Yoga me pe...

Mulheres na Índia, Mulheres em toda parte?

Mulheres na Índia, Mulheres em toda parte? Em dezembro passado, deixei o Brasil envolta na crença de que meus pés habitavam o chão da realidade quanto às expectativas sobre a Índia. Embora estivesse amparada pelas valiosas informações do Lonely Planet, gentilmente indicado por um amigo, a prática me ensinou que manter os pés no solo exige, acima de tudo, a habilidade da adaptação. É imprescindível que as mulheres consultem guias e relatos antes de se lançarem a esse destino. Talvez eu tenha chegado com um olhar tingido pelo pessimismo, o que contribuiu para agravar as situações que vivi: as exaustivas horas de voo, o cansaço profundo e o fuso horário misturaram-se a um cenário de barricadas, homens empunhando espingardas, detectores de metais e revistas constantes — rigores aos quais os sentidos brasileiros não estão habituados. Tudo isso compunha uma atmosfera densa, que pesava sobre a minha jornada. Essa densidade tornou-se absoluta quando eu e minha companheira de viagem nos perceb...

Felicidades aos Namorados

Felicidades aos Namorados Tempos atrás, mesmo quando o coração encontrava par, eu nutria um "bode" visceral e altivo pelo Dia dos Namorados. Sob o abrigo de um discurso exigente e por vezes prepotente, eu sentenciei que o afeto não carecia de calendários nem de fetiches materiais. Aos meus olhos de outrora, a data era apenas uma engrenagem fria da máquina comercial, um palco de plástico para sentimentos que deveriam ser livres. Eu vivia o meu próprio mito de Shiva isolado, o asceta que, do topo de seu Kailash intelectual, desprezava as convenções do mundo e as celebrações da matéria, acreditando que a verdade residia apenas na meditação solitária e na negação do supérfluo. Eu acalentava a crença de que as demonstrações de amor deveriam brotar como flores silvestres, vindas diretamente das profundezas do peito, sem o compasso do relógio social. Afinal, sou feita desse barro: adoro subverter o calendário, bordar surpresas em dias comuns e arquitetar situações para o encantamen...

Você é capaz de amar Incondionalmente?

Você é capaz de amar Incondionalmente? Não sei quanto a vocês, mas quanto a mim, sigo observando as flutuações da mente (Vrittis) que insistem em chamar de "amor" o que é apenas o desejo de permanência. Desde que estive na Índia, o sopro de Vayu não apenas derrubou minhas muralhas; ele varreu a poeira das definições. O que eu acreditava ser sólido — minha capacidade de entrega — revelou-se apenas mais uma construção do Ahankara, o ego. Hoje, reencontrei um rastro desse passado. Alguém que personificava uma paixão rápida, um movimento de Kama (desejo) com data de validade imposta pela minha própria mente. O fim ocorreu quando a dualidade se tornou insuportável: ele buscava o "muito mais", e eu, percebendo que não havia Dharma que sustentasse aquela união, escolhi o silêncio. Na época, agi como quem foge, carregando o peso da autoria — a ilusão de que eu era a causa da dor alheia. Mas, enquanto a mente tenta se refugiar em seminários ocidentais para justificar a falta...