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Arjuna diante de uma covardia moral?

  Arjuna diante de uma covardia moral? Saudações caros leitores. Depois de algumas batalhas psíquicas que travei, volto com essa articulação do Bhagavad Gita com a psicanálise. O destaque é para o guerreiro Arjuna  forte e corajoso, porém vulnerável; nobre, mas confuso, contudo, no momento crítico da peleja, a coragem dele cede lugar a uma profunda angústia, a desolação de ver a destruição da família.  No coração do vasto épico Mahabharata, quando os exércitos Kurukshetra se encontram e o estrondo das conchas de guerra anuncia o apocalipse de uma era, o Bhagavad Gita emerge como uma canção divina, um respiro de luz no meio da escuridão iminente. Não é apenas o relato de uma batalha física, mas o diálogo profundo entre a alma humana, representada pelo guerreiro Arjuna, e a consciência suprema, manifestada na forma de Krishna, seu cocheiro.  Essa obra é uma marco na minha vida por ser meu primeiro contato com yoga que ocorreu em minha adolescência. Espero que você desf...

Egoísmo e abnegação

Hari om! Segundo Satyananda, egoísmo e a abnegação são mutuamente exclusivos, onde um há, o outro não pode existir. Se uma pessoa é egoísta em uma ação ou pensamento, logo ela não pode ser altruísta. O altruísmo leva ao despertar do potencial humano, porque é uma necessidade, enquanto que o egoísmo impede e cria obstáculos. Por outro lado, será que ações ou pensamentos egoístas isolados, determinam o altruísmo de alguém? O egoísmo não pode ser exterminado instantaneamente, depende do sadhana ou abhyasa que é um termo do sânscrito, em devanagari: (साधनम्) que significa prática espiritual, é a prática diária do Yoga ou do tantrismo que leva o praticante à meta do Yoga que é moksha (liberação). Consideremos que a prática não é diária, pois ela se dá a todo instante, e talvez dizer que ela é diária pode reduzi-la ao que acontece no tapete. O extermínio do egoísmo se dá através da meditação em purusa (consciência testemunha), neste caso, hábil para lidar com "um obscuro conhecimen...

Praticante de yoga fora do tapete?

Praticante de yoga fora do tapete? Querido leitor! Querido leitor, Hari Om! Alguma vez você já silenciou o ruído das técnicas para perguntar ao próprio abismo: por que, afinal, decidi caminhar pela via do Yoga? O que resta dessa prática quando o tapete é dobrado e o incenso se apaga? O que é ser um praticante quando o corpo não está em asana, mas em colisão com o mundo? Pergunto-me se essa "espiritualidade" que tanto buscamos não se tornou um esconderijo. Afinal, és um praticante sincero e austero ou apenas um colecionador de rituais que servem para te manter, em segurança, na margem de si mesmo? Eu escrevi praticante. Pois há quem use o sagrado apenas para decorar a superfície, evitando o mergulho nas águas turvas da própria sombra. Fora do tapete, a ética deixa de ser uma tábua de mandamentos e torna-se a própria textura do seu caminhar. Como você lida com o Outro — esse espelho incômodo que é outra cultura, outra dor, outra sociedade? Você conhece os Yamas e Niyamas como ...

Aos alunos com carinho

Aos alunos com carinho Saudações primaveris, Queridos Leitores. Após uma década de travessia no Yoga, rompo o silêncio para compartilhar a colheita de dez anos de solo e alma. Este texto nasce de duas intersecções: um trocadilho que o título carrega e uma reflexão sobre a utopia no autoconhecimento. Se buscam aqui o misticismo que entorpece, sinto desapontar; minha oferta hoje é o real. No alvorecer da minha carreira, eu era habitada por uma crença messiânica. Imaginava que o Yoga era a chave absoluta, capaz de abrir todas as portas da cura, da paz e da resolução de conflitos. Eu via no "Outro" alguém que precisava ser salvo por mim, e nessa missão, vesti o arquétipo da salvadora. Contudo, ao tentar carregar o mundo nas costas, esqueci-me de que o mundo tem o seu próprio peso. O tempo, senhor da verdade, trouxe a sobrecarga. A energia escoou, os projetos paralisaram e a consciência nublou. Vi-me secundária em minha própria vida, culminando em um colapso necessário. Foi ali qu...

Al Hoda - Siga Seu Caminho

"Saudações! Enfim a primavera, embora as fronteiras entre as estações pareçam cada vez mais tênues. Recentemente, um diálogo sobre as linhas do Yôga me levou a uma profunda autodescoberta. É comum ouvirmos que existem cinco caminhos; embora funcionem em conjunto, todos temos nossas facilidades e abismos. O meu é o Bhakti. Sentada à mesa com um monge, ouvi que meu Yôga era teórico demais. 'A devoção está no comer com felicidade', disse ele. Aquilo me atingiu. Eu comia por subsistência, de forma autômata, distante do entusiasmo de quem realmente experimenta a vida. Recordando as punições que sofri na infância para comer, entendi por que, mesmo frequentando ótimos lugares, nunca sei indicar um prato: eu não estava lá. Eu me tornei uma propagadora da 'experiência' que não conseguia sentir o sabor do próprio almoço." J"Justo eu, que tanto propago o 'Sujeito da Experiência', vi-me vazia de vivência à mesa. Embora frequentasse bons restaurantes, era inc...

Quem comanda o tempo?

Quem comanda o tempo? A palavra tempo, no português, define-se como a duração calculável das coisas e a sucessão limitada de momentos em oposição à eternidade. Mas a forma como habitamos esses intervalos revela muito sobre nossa saúde mental e nossa verdadeira liberdade. Na tradição do Yoga, o tempo cronológico — o relógio que nos dita — é chamado de Kala, mas o sofrimento surge quando nos perdemos nele e esquecemos nossa natureza essencial, que é atemporal. Muitas vezes, somos engolidos por uma ânsia de realizar zilhões de tarefas sem questionar o propósito desse esforço. Vivemos o que Christophe Dejours identifica como a centralidade do trabalho, onde a atividade profissional deixa de ser apenas um meio de subsistência para se tornar o eixo único da identidade. Sob a ótica filosófica, caímos no estado de Rajas: uma agitação frenética que nos faz acreditar que nossa existência só tem valor se estivermos produzindo. É a manifestação de Avidya, a ignorância sobre quem realmente somos al...

Mulher, Mulher! Que escola que você foi ensinada?

Mulher, Mulher! Que escola que você foi ensinada? Começo esta reflexão com uma estrofe da música de Erasmo Carlos que era cantada pela minha mãe. Hoje ela já não canta tanto, mas continua firme em sua caminhada. Se hoje posso escrever estas linhas e expressar minha voz, é porque herdei dela a consciência de que nossa existência é uma conquista diária. "Mulher, mulher! Que escola você foi ensinada? Jamais tirei um 10. Sou forte, mas não chego aos seus pés." Esses versos sempre me pareceram um reconhecimento de superioridade — talvez um escudo necessário que minha mãe ergueu para enfrentar as injustiças que sofreu. Meu pai, alcoólatra e frequentemente violento, fez com que a separação ocorresse muito cedo. O trauma foi tamanho que, aos oito meses de gestação, um susto terrível causado pela violência dele me fez "escolher" ocupar apenas o lado esquerdo do corpo dela. O resultado foram dores atrozes para ela e, para mim, o "brinde" de uma orelha de abano. Dess...